O brasileiro escuta música pop japonesa desde antes do grande boom da internet, alguns porque se interessavam pela cultura, outros por terem tido uma educação onde a língua japonesa fazia parte do aprendizado. O Brasil como sendo a segunda maior colônia japonesa fora do Japão, se acostumou cedo ao som das músicas nipônicas. E foram os descendentes que mostraram aos não-descendentes o gosto por este tipo de música. Nesta época já haviam Utada Hikaru, Namie Amuro, Ayumi Hamasaki e uma série de outros. Os gosto do brasileiro pela música foi aumentando com a chegada dos desenhos animados, dos quadrinhos (mangás) e dos seriados Tokusatsu (super-heróis japoneses como Changeman e Jaspion). Que fique claro que quando falo de Jpop como música japonesa, estou incluindo no termo todos os subtítulos que definem os gêneros como JRock, Visual Kei, Anime Songs e afins.
A chegada da internet e a possibilidade infinita no consumo de informações acabou levando aquilo que era escutado no gueto, escondidinho, para o mundo inteiro. Estava iniciada a globalização e o início de uma nova fase para o Jpop no Brasil que ganhou um número muito, mas muito maior de seguidores. O que diferencia o público consumidor japonês de música e o resto do planeta é que por lá, eles de fato consomem os artistas, vão as lojas compram cds, produtos e pagam para ir em shows, etc… No caso do resto do planeta, e principalmente do Brasil, a net trouxe a chance das músicas serem consumidas gratuitamente. Certamente, essa característica popularizou o gênero, mas até hoje as empresas japonesas tentam descobrir uma maneira de lucrar com o modo como as músicas são usadas pela internet. Eu tive acesso aos relatórios de um encontro de grandes gravadoras japonesas na França e as palestras eram muito focadas em como conter o público japonês e impedi-lo de migrar para o “consumo gratuito”. Foi legal constatar que uma boa parte das músicas vendidas no Japão atualmente são compradas pela internet em lojas como Itunes. Uma outra parcela da população baixa os títulos direto no celular e nessa parte a conversa ficou mais interessante. Uma representante da Sony pediu para as gravadoras criarem uma coalizão para impedir que jovens baixassem músicas ilegalmente, no ano passado foram 5 milhões de downloads ilegais. Aí eu penso: “Mas e os outros quinquilhões de downloads gratuitos que fãs do resto do mundo fazem?” A resposta é mais interessante. Como eles não encontraram uma maneira de conter o fluxo das músicas pros outros países, eles sequer pensam na gente como verdadeiros consumidores de jpop. Algumas cantoras, como Utada Hikaru, tentaram fazer seu caminho para a América, mas o motivo dessa tentativa veio mais forte pela cantora do que pela gravadora, pode apostar.

Esse fato que eu citei acima faz com que a maior parte dos artistas não tenha interesse em viajar para outros países porque eles sabem que não vão ganhar muito dinheiro, enquanto o Japão é o segundo maior mercado musical do planeta. Para outras gravadoras menores, viajar para um outro país dá aos cantores ou bandas um status de artistas internacionais, mesmo que no show deles em outro lugar hajam apenas 50 pessoas. Nestes casos, eles até pagam pela viagem tortuosa de 30 horas até aqui.
Agora chegamos ao ponto importante. Desde 2003 com a primeira vinda de cantores japoneses ao Anime Friends (em SP) criou-se um pequeno mercado de shows voltados aos fãs de música japonesa. Começou com Anime Songs passou pelo Visual Kei e para as bandas de rock e pop em geral. Eu sou uma das talvez, 4 ou 5 pessoas que negocia artistas japoneses para o Brasil e sei que para os organizadores de eventos de cultura pop japonesa, anime, manga e etc, cada pequeno passo em direção a criação de um show é extremamente complicado. Fazer tudo funcionar, ter palco, comprar passagens, hotel, transporte, negociar, assinar contratos é um gasto imenso de tempo e dinheiro.
Eu não sei porque os fãs tem a idéia de que quando se compra um ingresso a 12 reais, ele está pagando pelo evento inteiro e por um mega-show, quando na verdade não está. Quando se faz um show de verdade tudo custa muito caro, o cachê que o cantor cobra é o que ele pede a todos, não tem descontinho, não tem ajudinha, não tem nada. Porque os ingressos de um show custam de 90 a 300 reais e o do evento de anime R$12? Cada um recebe pelo que paga, certo? Tire suas conclusões. Ou o artista resolve fazer um megadesconto no cachê ou o evento promove o que eu chamo de “roleta russa financeira” gastando todo o dinheiro e rezando para que o número de visitantes pague pelo menos pelos prejuízos.
Outra coisa que os fãs pensam é que se o cantor faz músicas que tocam em aberturas de animes, então ele deve ser mais barato que os outros, quando na verdade não são…

No Japão, a Sony decidiu colocar seus artistas para cantar algumas aberturas de animes como uma forma de populariza-los por lá. Isso todo mundo sabe. O que a maioria não sabe é que artistas como Ayumi Hamasaki são verdadeiras divas na Ásia tendo a popularidade que uma Madonna tem no lado ocidental.
Outro coisa que é um mito e que acreditamos ser verdade é que é muito difícil conversar com artistas e empresários de bandas pequenas, médias ou grandes, quando na verdade não é. Conversar é a parte mais fácil quando você atravessa a barreira cultural e linguística, o difícil mesmo é negociar, cumprir com todas as exigências detalhadamente, pagar os valores e fazer um bom evento para o público e para os artistas sem acabar cheio de dívidas para o resto da vida. Essa é a parte mais complicada.
A prova de que a comunicação é a parte mais fácil está aí em cima na foto que eu tirei com o Asian Kung Fu Generation. Essa é uma das bandas que eu mais gosto e sei que é a de muitos outros fãs no mundo também. E quer saber? Eles são muito legais, gentis, inteligentes, famosos e extremamente ocupados. Eu tenho vontade de trazê-los ao Brasil desde que comecei a gostar deles e tive a chance de conversar com eles na viagem que fiz ao Japão no ano passado. Mostrei a eles um vídeo dos fãs cantando um cover de Haruka Kanata no Brasil e eles adoraram. Acho que foi a primeira prova que tiveram de que existem muitos fãs deles aqui. Mas o Asian quase nunca faz turnês mundiais e a resposta é simples: eles ganham muito bem no próprio país, estão sempre criando músicas, gravando clipes e fazendo muito, mas muito sucesso. Se eles tem vontade de vir ao Brasil? Claro que sim. O único problema como eu havia dito são as exigências. Teríamos que investir muito dinheiro na produção de um show para que eles pudessem vir. Dessa maneira é impossível cobrar do público o mesmo valor que se cobra em eventos de animes e afins. Ao mesmo tempo, fazer um grande show e cobrar 300 reais de ingresso para pessoas que costumam baixar as músicas deles de graça na internet é impossível.
Nos últimos anos, eu estive tão envolvido nesse pequeno mercado musical que criamos e aprendi a adorar este trabalho. Cada vez mais, eu procuro me esforçar para popularizar este gênero por aqui. Uma vez eu conversei com a manager da Mika Nakashima e ela me disse que a equipe dela não tem planos de se apresentar no Brasil porque aqui de fato não são vendidas suas músicas. Eu nem tive como contra-argumentar isso. Resolvi então procurar as maiores lojas brasileiras de venda de música da internet e pedi a eles que começassem a vender as músicas japonesas. A princípio, todos estavam empolgados, inclusive eu, mas ao poucos essa empolgação foi passando. Fomos descobrindo que boa parte das gravadoras não liberavam as músicas para o Brasil, segundo o seguinte argumento:“Porque vou vender algo que todo mundo baixa de graça na internet”? Pronto, mais uma vez dei com a cara no muro. Pra não dizer que nenhuma empresa liberou nada, a EMI deixou alguns de seus artistas entrarem nos catálogos das lojas virtuais brasileiras. Hoje é possível comprar Utada Hikaru e Sexy Machine Guns nas lojas nacionais. Fora isso, eu continuo a me esforçar por uma coisa que gosto e acredito, mas não pretendo virar mártir de ninguém. Quando isso não der mais pra mim, eu vou sair e só manter a amizade que fiz com estes artistas.
A Kanako Ito que veio para o Sana adorou Fortaleza e até gravou um clipe de sua nova música no Porto das Dunas
Eu só me esforço em convidar os artistas para negociações que considero seguras, é por isso que faz 3 anos que trabalho com o pessoal do SANA, segundo maior evento de cultura pop japonesa que acontece em Fortaleza. De certa maneira, eles entenderam que o espírito da coisa é fazer bem feito com condições. Não dever nada a ninguém e não ter problemas. E é exatamente isso que eu quero que os outros eventos entendam. Eu sempre recebo pedidos de ajuda para convidar essa ou aquela pessoa, mas só entro nesse tipo de coisa sabendo que a estrutura do evento é forte o suficiente para aguentar o tranco financeiro que é trazer estes artistas. Do mais simples ao mais famoso, todos são caros. Tem gente que acha que trazer gente assim é fácil, paga-se uma passagem bem barata, um hotel sujo e se não der lucro, simplesmente não paga cachê algum. Errado! Pra mim este tipo de condição não funciona. Ao mesmo tempo, talvez a solução sejam mesmo as turnês, onde as apresentações rolam em cidades do Brasil e América do Sul. Isso divide bem os custos e também um pouco da responsabilidade. Infelizmente, no Brasil é complicado contar com isso, mas eu acredito que se os eventos tivessem um pouquinho de união e dinheiro talvez tivéssemos a chance de realizar muito mais com estes artistas que todo mundo quer encontrar.
Tá acontecendo atualmente uma coisa um pouco triste, mas que já era esperada. A geração recente da internet está ainda mais conectada com o que acontece no Japão atual. Esse grupo novo de fãs está mudando o jeito como os eventos são feitos. Exigem outro tipo de atração, e ao mesmo tempo, outro tipo de artista. O que pra gente era saudoso, pra esse novo fã não é. O que fazer então? Cobrar ingressos mais caros e tentar investir em coisas novas? Boa pergunta. Talvez isso force uma união entre eventos? Vai saber… só o tempo dirá…
De qualquer maneira, eu acho que vou ler aquele livro Grátis – O futuro dos preços do Chris Anderson, o editor da revista americana Wired sobre tecnologia. O autor explica neste livro como a internet está transformando serviços que eram cobrados no passado em algo gratuito e cria uma teoria que explica que quem souber trabalhar com a idéia de que as coisas são de graça vai ganhar muito dinheiro. Contraditório, não? Pois é, de repente nesse livro tem a resposta de como transformar o mercado de música japonesa em um mercado onde todos possam consumir de graça, mas ao mesmo tempo fazendo as empresas que investem nisso ganharem dinheiro.
Ah só pra constar… Essas histórias que contei acima são minhas! Tem gente por aí que disse que ouviu de um amigo um papo de um cara que fez tal coisa… Pois é, esse cara sou eu! Eu sou uma das poucas pessoas que trabalha com música japonesa que de fato já falou com o pessoal Asian Kung Fu Generation e uma série de outros. Neste texto, eu só decidi abrir um pouquinho da caixa de Pandora pra vocês que curtem as músicas, saberem o que rola por trás deste pequeno mercado musical.
Até o final do ano teremos algumas supresinhas vindo por aí. Se elas derem certo, talvez tenhamos no ano que vem a chance de ver aqui no Brasil mais algumas bandas que a gente não esperaria que viriam de verdade. Mas essa já é uma história que não posso contar ainda…














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