“…mas eu joguei o mês inteiro…”

Foto dos games que estão na minha casa no feriado
Foto do que está na minha casa no feriado!

Ontem eu resolvi dar uma olhada em alguns blogs de games, alguns sites e afins. No embalo escutei alguns podcasts e ouvi o que os jornalistas de tecnologia e games andam dizendo sobre o mercado e me deparei com um monte de reclamações de como isso ou aquilo é ruim e tal.

Bom, talvez seja porque eu estou há um mês editando uma revista, mas sinceramente ainda não vi muito disso. Uma das reclamações que me deixou pasmo foi o fato de falarem que o jornalista de games não tem tempo pra jogar que é um cara que rala quase o tempo inteiro. Enfim, sim, você trabalha pra caramba e não joga tanto quanto gostaria porque “Its a Fucking Job God Dammit”! Os caras pagam você para analisar os jogos, fazer pautas e escrever sobre elas e mesmo “jogando pouco” você ainda joga muito mais do que qualquer outro mortal neste planeta. Acima tem a foto dos games que estão na minha casa. Eles vieram direto da redação e assessorias de games para a minha casa no feriado. Me pergunta se eu estou jogando? Claro, entre um e outro texto da nova edição da Nintendo World, rola sem dó nem piedade uma partidinha de qualquer um desses jogos aí. O que me der vontade é o que eu vou jogar.

Outro ponto interessante que eu escutei nos podcasts da vida foi sobre o fato do trabalhador neste mercado não ser muito valorizado. Eu acredito que existam 2 fatores: o primeiro é o fato dos caras não se valorizarem e o segundo ser o nosso mercado em relação as vendas uma bosta.

O analista de games ganha uma merreca para falar sobre um jogo sim, mas esse valor tá bem longe de ser um trampo que desmereça o que o cara faz. Em relação a “não ter os games para jogar” é outra reclamação estúpida. O Freelancer que mora longe e quer escrever para uma revista de games tem sim que por obrigação ter o jogo em casa porque não é sempre que a redação tem como mandar isso pra ele. E os prazos de produção são realmente bem curtos. Mas além disso, se o freelancer quiser tirar o rabo do sofá pegar um ônibus e vir até a sala de jogos da editora para testar os games será muito bem vindo. Nego só sabe reclamar e reclamar.

Sim, nossas vendas no mercado nacional são uma merda! Enquanto em outros países se vendem 10 milhões de jogos, no Brasil esse número cai para 10 mil, talvez 20 se o jogo for um grande sucesso. É uma pena! E é com esses 20 mil jogos (vamos ser otimistas!) e sua porcentagem de lucro que vai de 10% a 25% que o dito mercado de games brasileiro paga por tudo o que faz e incluo dentro disso toda a redação e reportagem para revistas e websites através de anúncios.

Mas o que me deixa chateado é saber que um cara de uma empresa de games famosa veio me dizer que o México e os outros países da América Latina vendem mais do que o Brasil. Isso não é só uma verdade, mas também uma realidade. Os impostos em nosso país são muito altos e o contrabando também. Enquanto uma empresa de games monta sua base por aqui e tenta fazer as coisas da maneira como ditam as regras nacionais, um contrabandista traz o game de fora (sim de um país como o México!) sem pagar impostos para vender com 85% de lucro não dando a mínima chance da empresa oficial se estabelecer. Sim, meus amigos o problema do Brasil não está só nas editoras que pagam mal ou nos funcionários desqualificados, mas sim na nossa economia que ainda é ruim. O buraco é sempre muito mais embaixo. Por isso que reclamar paliativamente das coisas não resolve porra nenhuma!

A empresa que eu citei acima não investe no Brasil, mas eles já montaram um escritório no México, onde por lá a coisa vai de vento em popa.

Outra coisa que me deixou chateado é que eu sinto que falta muito comprometimento por parte dos jornalistas de games. As pessoas gostam de reclamar para caramba, mas não fazem nada para melhorar suas situações. Tem gente que trabalha pra ganhar o equivalente a uma cervejinha, mas como curte games acaba aceitando a coisa do jeito que ela é. Não façam isso! Cogitem mudar de profissão, cogitem largar seus cargos e sair para uma empreitada rumo a outra coisa. Não fique infeliz enfurnado em uma redação xingando deus e o mundo por ter um salário minúsculo pro que você faz. Tá infeliz então vá procurar algo que lhe dê mais condições. Se você reclama, definitivamente essa área não é pra você!

Fazer revistas de games exige entre outras coisas criatividade. É um trabalho criativo! Não é só jogar, mas criar coisas que atraiam o leitor seja ele de site ou de revista. E se você não tem pique pra isso aceite que não está apto para este mercado.

Quer ganhar mais? Então estude e faça concursos públicos, termine sua faculdade e projete sua vida para frente. O dito mercado de games brasileiro é coalhado de pessoas sem qualificação que acham que por ter um blog onde traduz coisas de vários lugares é melhor do que os outros. Tristeza.

Eu fico absolutamente revoltado com gente que vive falando um monte de besteira e não faz nada pra mudar. E ainda por cima acha que, contratado, se fizer uma porcaria de trabalho talvez seus chefes se toquem de que ele na verdade precisa é de mais dinheiro e resolvam lhe dar um aumento. Olha que pensamento absurdo! Se você faz um mal trabalho então, o máximo que você vai ganhar é mesmo um pé na bunda, isso sem falar em prejudicar o seu próprio trabalho e de ter um portifólio de merda!

Os engessados jornalistas de games dizem que estão tristes por não terem apoio das empresas grandes e oficiais. Esperam o game e os releases caírem no colo.

A verdade é que quando eu trabalhei na área de 1999 até 2004, eu sentia que a gente não tinha mesmo apoio nenhum. As coisas eram mais difíceis e não havia condições de contatar todas as empresas para ter acesso a imagens e conteúdos oficiais. Atualmente eu me vejo espantado em saber que muitas empresas já fincaram seus pés por aqui. Ou seja mesmo considerado um mercado de merda para videogames, as empresas sabem que estamos avançando, mesmo que em passinhos de tartaruga, para um dia em que o mercado deve se estabilizar e melhorar.

E  falando assim, qual é a função dos jornalistas de games? É de aguentar firme e de fazer o melhor trabalho que puder porque se não somos valorizados agora, se estivermos na área no futuro seremos. O que é preciso fazer agora é barulho! Faça barulho! Não fique parado aí seu bundão! O Brasil está cheio de escolas que vão ensinar um cara como você a fazer um game, está cheio de revistas boas e ruins, mas que falam sobre o assunto.

Acho que rola uma completa falta de engajamento nas coisas. O repórter tá com saco cheio das coisas como elas estão e o leitor sente isso no resultado final. Tá na hora de mexer nas coisas, de não aceitar a derrota.

Uma coisa que me deixou puto outro dia foi ter percebido que um dia depois da primeira edição da NW como editor sair da gráfica, o IGN colocou no ar uma sequência de imagens novas de um game cuja assessoria havia me dito que não havia nada. Eu fiquei absolutamente revoltado. A única reação que tive foi a de ligar para a empresa em questão, procurar o superior mais superior que eu encontrei e desabafar tudo pra ele. Numa parte da conversa eu disse: “Eu sei que no Brasil se a gente dá um peido acaba por pagar imposto sobre isso, não precisa me contar isso pq eu nasci aqui! So, lets cut the crap! Eu passei 3 semanas implorando por imagens de um game que vocês liberaram mais tarde e isso me prejudica e prejudica vocês. Certamente, o seu game não vai vender tanto quanto gostaria porque um veículo importante como o meu deixou de falar do que você produziu. Nós somos um único mercado e eu sei que o Brasil vai crescer e certamente um dia você vai vir aqui e me mandar releases pedindo para que eu fale de você! E se o meu veículo não tiver morrido por causa das coisas que vocês fazem eu certamente vou ajudá-lo. Eu não quero mais correr atrás da internet, eu sou revista então me trate como uma por favor”.

Bastou este discurso chato pra que a minha relação com os assessores melhorasse bastante. Este mês recebi coisas que o IGN só vai receber próximo a minha data de lançamento nas bancas e provavelmente o atraso na produção da informação impressa na minha revista vai melhorar aos poucos. Eu mandei um email para um dos antigos colaboradores da revista sobre as informações terem sido entregues para o IGN e sabe o que ele me disse? “Ah, Renato mas eu acho que querer ser o IGN já é demais!”… Po, por isso que esse mercado é assim. Aceitar o derrotismo e não vestir a camisa do produto que você faz é o que prejudica você e os outros. Eu não quero ser o IGN, eu quero ser melhor do que o IGN! Eu quero ter notícias que o IGN não tem. É difícil porque eles moram nos EUA e vão aos estúdios a hora em que quiserem. O mercado deles é desenvolvido e eles cagam em dólar. Certo. Mas eu quero ser assim algum dia, mas se eu aceitar que as coisas são como são isso nunca vai acontecer. Por isso ao invés de ficar aí reclamando faça alguma coisa.

No Japão eu aprendi que ao entrar em uma empresa você faz parte dela pra mal ou pra bem tudo o que você faz influencia na vida do próximo. Tem que se dedicar. Ganhando 1 ou 100 mil não importa, se você aceitou então se esforce.

Eu lembro da minha ex-namorada no Japão me dizendo: “Quando você for comprar a sua televisão LCD compre uma da Hitachi porque economiza energia e ajuda o meio ambiente. A imagem também é melhor e bla bla bla…” Ela tinha acabado de ser aprovada para trabalhar na empresa e havia lido tudo sobre os produtos da Hitachi e o histórico da empresa. É uma pena que não exista Hitachi aqui porque senão eu compraria a tv que ela me indicou só porque fiquei feliz pelo jeito como ela falava de seu novo trabalho.

Acho que tem que ser assim. Precisamos de pessoas engajadas em fazer o melhor, mesmo não ganhando o suficiente. Se você for um bom profissional certamente mesmo estando infeliz no seu dia-a-dia alguém vai tentar “roubá-lo” para outro trabalho. Isso é fato!

Eu olho para o histórico da Tambor que já foi Futuro e que antes era também uma parte da Conrad. E eu vejo uma história com altos e baixos, mas que gerou e ainda gera muitos profissionais desta área. É inegável isso. Já passou muito dinheiro nas mãos desta empresa e teve gente lá que ganhava muito bem. O tempo passou, eles tiveram problemas financeiros e quase quebraram. Quem saiu, saiu puto e foi pra outros lugares ganhando menos pra não ficar sem trampo, mas hoje eles estão se recuperando.

As pessoas me criticam por estar na Nintendo World hoje aceitando o que eles me pagam, mas verdade seja dita: não é tão ruim quanto todo mundo diz. Tenho estabilidade, não passo fome e faço uma coisa que gosto. Não trabalho por um prato de comida ou recebo pagamento em jogos de videogame.

A revista tá aí nas bancas. A próxima promete ser melhor ainda, a medida em que diversos maus vícios que existiam na editora forem sendo mudados gradativamente. Vamos ver. Espero que melhore e que meu pique me leve a fazer coisas muito legais. Eu faço essa revista pra mim e não pra editora. Com esse pique, certamente a Tambor deve mudar um pouco mais. O meu ritmo não pára.

Agora deixa eu trabalhar que o “feijão já tá queimando aqui”. Por favor comentem!

9 opiniões sobre ““…mas eu joguei o mês inteiro…””

  1. Esse texto coincidiu com uma série de coisas que andei pensando nessa semana. É realmente muito desanimador ver como o mercado de games é mal explorado aqui no Brasil. E nem precisa ir longe demais analisando a postura dos profissionais na área, basta olhar o preço das mercadorias. O governo deve julgar que game é coisa de gente multi milionária. Só isso para justificar os valores.

    Concordo sobre a questão de aceitarem trabalhar a troco de amendoim. Essa discussão dá bastante pano pra manga!

    Enfim… Acabei de postar um texto sobre games, escrita e a possibilidade de combinar ambos na NW =) Nem preciso falar o quão empolgada estou!
    O texto tá aqui: http://www.laurabuu.com

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  2. Oi Renato

    Não sei quanto ganha um redator de games hoje em dia. Mas pela qualidade dos textos que vejo em algumas revistas, deviam é ganhar um murro na fuça.

    Ainda não tive chance de conferir sua fase na Nintendo World, fico torcendo para encontrar coisa melhor.

    Boa sorte e bom trabalho!

    Cassaro

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    1. Ha ha ha ha ha ha… Concordo com você. Eu sou vidraça agora… Estou ralando na Nintendo. Se quiser ver o meu trabalho eu o aconselharia a comprar a NW 129 ou 130. Depois você pode vir e me dar um soco na fuça!😛

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  3. Olá,

    Conheço seu site há pouco tempo, li alguns post/matérias que você expões e fico impressionado com o pensamento e atitudes que você possui, pois me vejo com as mesmas idéias, discursos e atitudes. Sou um apaixonado por animação, games, tecnologia, cultura em geral e “entretenimento nerd” e trabalho na área, com a promoção de eventos percebo muita coisa que foi dita neste post e em outros uma certa realidade e concordo em muitos pontos ou quase todos com você.

    Parabéns pelo conteúdo do site e continue assim.

    Um abraço.

    Um abraço.

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  4. Olá Renato,
    também conheço o seu site a pouco tempo, mas vejo que tem feito um bom trabalho com as matérias e a fins.
    Sobre o texto dito, tem coisas que concordo com você como o fato que o cara tem que gostar do que faz e não gostar de apenas receber no final do mês, outra coisa que concordo é que o Brasil não tem um mercado tão agressivo em relação aos games em geral, mas isso é dado aos impostos altissimos sobre os produtos. Tenho um Xbox 360 e gosto de sempre jogar games novos, para esse Natal fui pesquisar sobre games o qual comprar, a lista foi meio grandinho, com os nomes em mão fui pesquisar os presos e não achei nada a baixo de 150/200 reais nos sites brasileiros e lojas da região, enquanto nos sites americanos achei lançamentos do tipo Call Of Duty: Modern Warfare 2, Assassin’s Creed II, etc. por menos de 60 dólares que daria aproximadamente 120 reais aqui no Brasil.
    Por isso acho que o mercado de games no Brasil nunca vai para frente, o cidadão que quer comprar um jogo vai querer levar 4 games ao inves de 1 apenas com o dinheiro que tem. Na minha cidade por 120 reais dão para comprar de 4 a 5 games de Xbox 360, mas como gosto de jogar na life tenho que me submeter em apenas comprar um jogo COD: MW 2 por nada mais nada menos de 230 reais.

    Mas, mesmo assim, parabéns pelo site, continui assim e boa sorte na Nintendo World… me lembro quando era pequeno e comprava essa revista para Zelda e Resident Evil 2… muito bom😄

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  5. Aew penpas! Olha é engraçado você escrever algo assim, como fan maluco de games essas coisas passam pela minha cabeça, mas nunca fui muito interessado em escrever sobre games.
    No entanto sempre tive vontade e até já fiz alguns joguinhos bobos (tudo mto tosko), me interesse pelo assunto, e quando vejo o cenário brasileiro fico muito decepcionado. Mas no fim preferi seguir outro rumo (que também gosto) de telecom / T.I. que tenho mais oportunidades e condições de manter meu vicio pela jogatina.

    Não vou mentir aqui já usei e uso algumas copias ilegais (não quero discutir isso pq num leva a lugar nenhum), mas que apoio investimentos no mercado brasileiro, tipo Halo dublado em port-br preço de159 reais eu comprei e acho um preço razoavel para um produto feito para nós brasileiros, e fico mto triste em ver colegas usando copias ilegais dele, felizmente fiz a maioria compra-lo tb.
    Mas a grande verdade que você falou é isso, nosso mercado é uma bosta, e as vezes surgem empresas que até debocham de nós, como no caso do rock band do beatles que sai mais em conta viajar pros EUA do que compra-lo aqui, ou do playstation 2 oficialmente no brasil por uma bagatela de 800 reais (acho q é isso), onde vc compra esse ps2 no mercado “cinza” pela metade desse valor. No fim tudo aqui é uma grande piada!

    Boa sorte com a revista, adoro a nintendo, me arrependo de não ter mais wii, deu inveja ver a foto do NSMB(wii), e vamos esperar pelo zelda spirit tracks(ds) pq zelda é sempre foda!

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  6. Sabe, Caro Editor (haha)! Eu concordo contigo!

    Acho muito fácil reclamar, e acredito que não seja só na indústria dos games que seja assim. Qualquer lugar que você pise no mundo vai ter gente insatisfeita. Insatisfação é sinônimo de ser humano. Bobagem! Grande bobagem… Afinal, quem mais pode fazer pela gente, se não a gente mesmo?

    Acho que as coisas acontecem aos poucos, ninguém vai ganhar mais porque acha que merece. Vai ganhar mais quando outro achem que você merece. Essa é a lei. É óbvio que eu acho que deveria ganhar mais, mas quem vai decidir definitivamente não sou eu. E não reclamo por isso!

    O problema é que as pessoas trabalham pensando em grana, e não ganham grana pra poder trabalhar. Acho que as coisas estão meio invertidas. Quando você trabalha você ganha reconhecimento, e não o contrário. Repito: trabalho é sinônimo de dinheiro, e não o contrário. Tudo na vida é consequência das coisas boas e ruins que você faz. tenho certeza que avó dessas pessoas sempre falou: “Que a gente colhe aquilo que planta”. E, clichê ou não, é a mais pura verdade.

    Outro ponto é reclamar de barriga cheia. Mano, já parou pra pensar que seu trabalho é diversão? Ok, ninguém joga o tanto que gostaria. Mas, como você disse, joga mais do que a maioria dos mortais que tem mais de 15 anos, e precisam entrar engravatados em seus serviços às 08h da manhã.

    Tá de saco cheio? Joga tudo pro alto. E vai atrás daquilo que te dá tesão. Vida sem tesão é vida de merda – pelo menos aos meus olhos. Não prolongue o que não te faz bem, não faça isso com você e nem com quem espera ansiosamente pela sua vaga! É a lei da vida, o mais forte come o mais fraco, e ainda arranca os olhos!

    Um beijo Renato, te vejo na mesa do lado.😉

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