Flyjin = gringo que fugiu do Japão no meio da crise

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A catástrofe que aconteceu no Japão no dia 11 de março gerou um volume enorme de notícias exageradas, falta de informação e pânico na população. Embaixadas mais conservadoras pediram ao povo que “considerasse” deixar o país, o que fez com que muitos estrangeiros voltassem a seus países ou fossem para áreas mais afastadas da região.

Com tudo isso, os japoneses criaram um acrônimo, o Flyjin (フライ人) que é a fusão da palavra Fly (voar em inglês) e Gaijin (gringo).

O Flyjin ouestrangeiro voador”, é aquela pessoa que “abandonou” o país quando ele mais precisava, enquanto os japoneses continuaram a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Isso nas entrelinhas tem um significado que a meu ver é o seguinte: “enquanto estava tudo bem vocês estavam aqui, quando tivemos problemas, vocês fugiram. São ingratos”.

A palavra em si é preconceituosa, racista e conservadora, mas mesmo sabendo que a sociedade japonesa funciona coletivamente, imagino que neste caso especificamente duvido que este termo seja usado por todas as pessoas. Por outro lado entendo que o exôdo dos estrangeiros (e até de alguns japoneses!) tem muitos pontos de vista diferentes.

Deve ter sido uma agonia para um executivo japonês saber que apesar de tudo o que estava acontecendo precisava continuar trabalhando. E um saco também saber que seu colega de trabalho estrangeiro resolveu deixar aquela confusão e foi embora, sem pensar na situação.

Ao mesmo tempo, eu imagino que um terremoto gravíssimo, seguido de Tsunami e ameaça nuclear tenha apavorado muita gente. Na hora de avaliar a situação, uma pessoa de outro país que tem família pensa primeiro em sua segurança. Se há uma opção de voltar ao país de origem porque não o fariam? E certamente se a situação fosse o inverso, os japoneses deixariam o país em que vivem para retornar ao Japão.

Tenho dois amigos de empresas japonesas que trabalham no Brasil, falam português e amam o país. As empresas japonesas consideram o Brasil “o lugar mais perigoso do planeta” (tô exagerando!) para se trabalhar, por isso quando os executivos vem para cá são aconselhados a pegar táxi para onde quer que vão, além de ganhar bônus no salário por “arriscar a vida”. E mesmo sabendo disso não criamos um acrônimo para eles, apesar de chamarmos todo japonês de “japa” o que de certa maneira já é preconceituoso o suficiente. 😛

Como defesa, ao ser chamado de Flyjin, os descendentes de japoneses que voltaram ao Brasil tem uma opinião interessante. Na época da crise econômica, os estrangeiros foram os primeiros a serem dispensados das fábricas. Tinha gente que voltava muito triste porque tinha vivido 20 anos por lá e não tinha condições de se “adaptar” ao Brasil. Mas com a crise econômica que se abateu, era despedir estrangeiros ou os próprios japoneses, por isso o lado mais fraco se foi. Certamente, faríamos o mesmo por aqui.

Os “dekasseguis” (brasileiros que vão ganhar a vida por lá pensando em voltar) são contratados no Japão em um regime provisório chamado haken que é renovado de tempos em tempos. Sendo assim não há um “emprego fixo”, assim um empregado estrangeiro, no regime de haken, pode sair de um emprego para procurar outro, mudar de país, etc. Por isso que naquela época demitir os haken ficou muito fácil.

Esse primeiro exôdo de brasileiros do Japão mostrou  a importância de se adaptar a cultura e a sociedade de um país. É bom ficar por lá quem realmente quer e tem condições para isso. Quem tem condições sabe defender-se de uma palavra inventada por gente conservadora e preconceituosa, certo?

O fato é que tem gente noticiando a criação da tal palavra e blogueiros até mesmo tentando se explicar porque não são Flyjin. E amigos, não vale a pena brigar por uma coisa como essa. Reações assim são inerentes a sociedade e a cultura de cada país. E infelizmente isso tem em todo lugar.

Eu pessoalmente tenho uma vontade muito grande de morar no Japão. Se tivesse uma chance, eu já estaria morando lá há muito tempo, com crise, com terremoto ou com o que quer que fosse. E conheço muita gente que apesar de todos os problemas,  continua lá firme e forte. E mais alguns pensando em ir. 🙂

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