Minha relação de amor e ódio com o Sekentei!

世間体

O Sekentei (世間体) tem uma tradução até que bem simples para o português. A palavra significa, a visão que a sociedade tem do povo. Ou seja, os valores que o cidadão deve seguir para ser bem visto pelos olhos da sociedade. O que é socialmente aceitável e o que não é. Isso existe aqui no Brasil também e, claro, não é uma invenção japonesa.
Quem estuda outra língua, se interessa pela cultura e tende a viajar a outros países e se relacionar com outras pessoas vive chocando-se com o  Sekentei. É absolutamente necessário chocar as visões sociais para que haja um bom entendimento de uma cultura diferente.

Se:
O mundo, a sociedade
Ken:
Espaço, distância
Tei:
Aparência, olhos

Pensando no comportamento dos japoneses e como este é diferente de nós, ao tentar entender a cultura e a sociedade sempre existem alguns limites que se deve respeitar para se viver em harmonia.

Vasculhando a internet eu encontrei um site de um ocidental que vive no Japão e resolveu destacar  o que há no comportamento dos japoneses que é diferente de outras culturas. É lógico que cada opinião é pessoal, mas lendo o faq  encontrei várias situações que passei e passo em comum com o autor do site. Por isso, eu resolvi tomá-lo como base para fazer uma versão em português. O site é este aqui.
A minha opinião está embutida dentro deste texto, portanto não é apenas uma tradução. Acho que isto é necessário levando em consideração que o cara também não é brasileiro, portanto adaptar as opiniões acaba aproximando os comentários para a nossa realidade.

Enfim, para quem se interessar, por favor leia o texto abaixo e comente no espaço para comentários.

O escritor do site disse que procurou destacar os aspectos negativos mais do que os positivos, porque considerou que estes aspectos são o que mais causam problemas de relacionamento entre japoneses e estrangeiros.  Sendo assim, de nenhuma forma podemos nos basear apenas nestes aspectos para julgar o país e as pessoas como sendo boas ou más. Entendido? Nada de generalizações! Então vamos lá.

Abaixo você confere uma série de reações e atitudes que o ocidentais podem encontrar no Japão.

1. Uchi-Soto ( “nós e eles”)

Esta é uma das primeiras coisas que você percebe sobre o comportamento japonês. Os japoneses foram criados para pensar em si como parte de um grupo, e seu grupo está sempre lidando com outros grupos. Isto é visto por muitos ângulos diferentes. Por exemplo, internacionalmente seriam “Nós os japoneses” contra todos os outros, mas em escolas e empresas, existem muitos grupos e sub-grupos que nem sempre estão em perfeita harmonia e cooperação. Fazer uma negociação com um japonês no “mano a mano” pode ser muito fácil para um ocidental, mas quando você lida com o japonês sendo “parte de um grupo” seu comportamento pode ser completamente diferente.
Portanto não importa o quão bonito você é, ou como o seu japonês é perfeito, você sempre será tratado como um “invasor”. Na verdade, o significado literal de “Gaijin” é estranho (alien), uma “pessoa que veio de fora”.  Muitos ocidentais vêem os japoneses como distantes, tímidos, e sempre “caminhando sobre ovos”. Há muita verdade nisso – japoneses são extremamente sensíveis ao que os outros possam pensar deles (ou pior – o que dizem pelas costas! Sim, eles também fazem fofocas!). Além disso, são muito hesitantes em fazer algo novo, diferente ou independente.
Ser proscrito é uma das piores coisas que podem acontecer a um japonês, que foi criado para ser parte de um grupo, portanto dependente de outros. Assim, quando um pedido é feito a um japonês, a resposta acaba levando mais tempo do que o esperado, porque a pessoa costuma consultar outros do grupo antes de chegar a uma conclusão.  Por isso, enquanto o ocidental começa tantas frases com “Eu”, quando um japonês faz o mesmo ele está recebendo a aprovação de todo o grupo.
Por causa dessa relação do Uchi-Soto quase não existem greves no Japão. Uma empresa japonesa é um grupo de pessoas, assim se a companhia lucra, todos são beneficiados. Um chefe de empresa japonesa não ganha 100 vezes o que um operário de menor cargo ganha e isso impede que manifestações aconteçam. Mesmo os sindicatos das empresas estão alojados dentro das próprias.

Se eles pensam como grupo, seguir o que a sociedade dita como sendo correto é quase uma “lei”. Uma boa parte do povo já sabe exatamente o que vão fazer de suas vidas, como se um “caminho” já houvesse sido traçado. Por exemplo, uma mulher japonesa, nasce, cresce, começa a frequentar a escola e trabalha fazendo “bicos” até um ano antes de se formar na faculdade. Neste ano que lhe resta de vida estudantil ela faz o chamado Job Hunting, uma caçada a procura de bons empregos. Nesta época as empresas fazem uma seleção de funcionários e fazem com que eles assinem um contrato dizendo que estão automaticamente aprovados assim que terminarem suas faculdades. Nossa mulher japonesa conseguiu um emprego e entrou na empresa com exatos 22 anos. Ela então trabalha nesta empresa até os 27 ou 28 anos quando se casa com um homem japonês que passou pelo mesmo processo e está no mesmo nível financeiro. Depois disso, ela larga o trabalho e torna-se uma dona de casa enquanto o marido passa a vida no trabalho para sustentá-la. Esta seria a visão ideal da sociedade em relação a qualquer mulher e homem japonês. Mesmo dentro das empresas, as jovens funcionárias acabam por preencher cargos mais baixos do que os dos homens porque já é pensado que algum dia ela vá desistir do emprego.
Eu, particularmente, acho a idéia de sair da faculdade e possuir um bom emprego muito boa. A idéia de já ter uma carreira bem sucedida logo do começo é incrível. Mas não dá para pensar apenas nisso.
O contrato de trabalho com uma empresa japonesa raramente leva em consideração a formação do candidato, ou seja, quase ninguém faz aquilo que estudou para fazer. Sair da empresa porque “não gostou” gera uma visão negativa da sociedade japonesa já que as decisões segundo a “lei” devem sempre acontecer de forma coletiva. Se você deixa uma empresa e parte para outra o argumento que terá para conseguir outro bom emprego não é suficiente. Se você disser ao setor de recursos humanos de outra empresa que saiu da última porque “não gostou” ou “porque não era aquilo que você imaginava”, a reação do RH é a seguinte: “Se você saiu da empresa que apostou e confiou em você, o que impede que você não faça o mesmo com a nossa?”
Sendo assim, por pensar de forma independente a pessoa acaba por se tornar um proscrito. E sobre isso já lemos lá em cima.

proscrita

Continuando… Nossa querida mulher japonesa do exemplo se casou, mas quer continuar trabalhando… Impossível! A esposa deve respeito ao marido. Ela precisa estar em casa para servir o jantar, cuidar dos filhos e fazer a limpeza. E se por causa da carreira esta mulher japonesa resolve não se casar? Bom, neste caso ela acaba ficando solteira para sempre já que os homens japoneses querem uma mulher submissa, dona de casa e não independente. Se ela quiser se tornar independente, ela se torna proscrita… e sobre isso já lemos lá em cima!

Eu tenho que complementar isso dizendo que a visão conservadora do Brasil também é desse jeito. Sim. Mas a diferença entre nosso povo e o japonês é que aqui conseguimos pensar de forma independente e nos adaptar a certas situações. Como o japonês pensa numa sociedade coletiva, ele acaba sendo julgado por esta pseudo “justiça invisível”, por isso pensar de forma independente é muito mais complicado. Talvez não seja impossível, mas certamente é muito mais difícil.

Essa visão é exatamente a que se tem da sociedade japonesa, lógico que não se pode generalizar como se todos fossem assim. Existem muitas pessoas que simplesmente não aceitam esse tipo de pressão, muita gente se mata, muita gente luta para trabalhar com aquilo  que gosta, bem como muitas mulheres para continuarem suas carreiras acabam casando-se com um Gaijin!  Já que este estrangeiro é que acaba dando força para a carreira da esposa, ajudando a cuidar da casa e dos filhos…  É uma idéia relativamente nova. Para ler sobre isso é só conferir a matéria publicada em 2004 no The Christian Science Monitor em inglês.

Segundo pesquisas com as mulheres japonesas, na visão de muitas delas, o marido japonês é um cara ausente que não tem tempo para casa e para os filhos. Que chega tarde do serviço e que não é um grande amante. Pesquisas dizem que o Japão é o país onde se menos faz sexo no mundo inteiro. Mas quando eu viajei para lá, o número de puteiros, casas de massagem e sex shops me espantou. Para mim, é quase como se o homem deixasse de fazer sexo em casa e o procurasse na rua.  Não é a toa lá que atendentes de bares e prostitutas ganhem mais dinheiro do que funcionárias devidamente empregadas em mega-empresas milionárias (matéria sobre isso publicada no meu outro blog com vídeo).

Tem uma matéria sobre os brasileiros que trabalham no Japão cujo tema é: “Trabalho puxado separa casais brasileiros no Japão – o motivo é a falta de atenção” no site da IPC Digital, vá até lá e leia!

Apesar destes pontos ruins, o Japão é uma das maiores potências do mundo e o Sekentei ajudou o país a crescer e a unir a nação quando mais foi necessário, logo após a Segunda Guerra Mundial. Talvez se nós brasileiros pensássemos um pouquinho mais no coletivo, nós também tivéssemos melhores serviços, melhores salários e uma melhor economia. Transporte de qualidade, bom atendimento em qualquer estabelecimento comercial, pessoas seguindo as regras, baixa criminalidade e etc. Apesar dos relatos acima, esse é o ponto positivo deixado pelo Sekentei aos japoneses. E isso é logicamente um tesouro e uma herança eterna. O que é prejudicial ao povo é quando o pensamento é levado ao extremo e isso é questionado pelas novas gerações, pois seus problemas ao invés de serem discutidos e resolvidos são apenas julgados indiscriminadamente por esta pseudo “justiça invisível”.

O que achou deste texto? Comente! Depois vou colocar a parte 2!

2 opiniões sobre “Minha relação de amor e ódio com o Sekentei!”

  1. Meus parabéns, eu li com bastante atenção e li todos os links relacionados!E isso me esclareceu várias coisas que eu pensava e tinha um pouco de dúvida!Por exemplo, eu acompanho a carreira dos anisingers, e vejo em seus blogs, uma rotina ABSURDA de trabalho, e alguns tem filhos e o kageyama eu sei que é casado!Mas eu pensava “Como pode!!???Não existe tempo!”, é algo ruim!
    E isso me esclareceu bastante a resposta do meu ex-namorado (japonês puro de hokkaido,namoro via internet) quando termieni com ele, eu afalva mais com o wada que com ele!Ele trabalhava tanto que em um mês falavamos uma vez e uma hora só!!!E-mails??Um ou dois de 3/4 linhas!!E quando terminei e falei nos meus termos, sobre tempo, amor, eu disse “Namorada não é só um título!Tem que ter contato!” e ele respondeu ” Você ainda é muito criança, acho que duas pessoas de longe não podem ficar juntas”, fiquei brava e falei um monte de coisas nos termos brasileiros da coisa, e depois ele se desculpou, e hoje somos bem amigos e conversamos bem mais…..eles se sentem atraídos por nossa idependência e liberdade em certas coisas.

    Texto íncrivel!Omedetou!

    kissus =**

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