Pílula no Japão ainda é uma lenda…?

Bom, como só coloco aqui o que me dá inspiração e vontade de escrever, é melhor eu aproveitar e escrever logo antes que a vontade passe. Sim, se você entrou aqui achando que este blog era mais um de notícias está parcialmente enganado. A idéia do Penpas é falar de Cultura Pop japonesa de forma sempre curiosa indo para um lado mais interessante do que noticioso. Enfim, é bom falar dos aspectos que fazem parte da sociedade japonesa, aqueles que formaram essa cultura que vocês amantes e entusiastas tanto gostam, e as vezes esses aspectos são estranhos e até inaceitáveis da parte de um ocidental. Por isso, o papo de hoje vai ser brabo!

Enquanto estava no Japão eu resolvi perguntar a uma amiga como se comportavam as japonesas em relação a sexualidade e tal. Na época não havia a pesquisa sobre sexualidade da revista An An (veja aqui!).

Conversamos bastante e eu tive curiosidade de perguntar sobre a famosa pílula anticoncepcional, aquela que deu as mulheres do mundo todo um novo status, uma chance de escolha e de liberdade muito maior. Enfim, quando perguntei sobre isso ela respondeu: “Os médicos aqui dizem que a pílula faz mal para a saúde e que não devemos tomar só em casos muito graves porque tem efeitos colaterais devastadores!”

E eu respondi a ela que há 15 anos realmente a pílula tinha uma dosagem muito alta de hormônios, mas que com o passar dos anos os “efeitos devastadores” haviam sido minimizados e hoje jovens no mundo inteiro tomam sem ter problemas. E ela me respondeu: “Uma amiga minha tomou uma vez porque estava com a menstruação estranha. Ela ficou o tempo inteiro passando mal e vomitando. Ela engordou muito! Eu que não ousaria me arriscar assim, eu sou saudável e não preciso disso. E os médicos não recomendam”. A resposta me deixou chocado. Em pleno 2009, como o Japão sendo um país high-tech que tanto na parte tecnológica, quanto na moda e na economia navega sempre a frente, na contemporaneidade, pôde jogar a mulher em um buraco tão fundo no passado. Tá certo que a mulher japonesa é magérrima e que se ela come uma bala e engorda 300 gramas as amigas já saem dizendo: “Nossa, você deu uma engordadinha, né?” Mas mesmo isso não é motivo para que elas deixem de fazer uso de uma coisa tão importante quanto a pílula. Além disso, eu descobri depois que a pílula custava 10 mil ienes uma caixa (R$ 200) e só podia ser vendida com receita médica. Aí é demais!

Teve uma época em que o Japão além de ser o país com o maior número de suicídios era também o país com o maior número de abortos. Aliás, o aborto lá é legalizado! O plano de saúde não cobre, mas você pode fazer se estiver por lá. Enfim, ao invés de tomar a pílula e evitar a gravidez, é melhor trepar muito e depois que engravidar é só tirar.

Nem preciso dizer o quanto esse assunto me deixou pra baixo nesta minha segunda viagem ao Japão. Quando viajei pela primeira vez uma amiga japonesa me disse: “Você precisa ficar um ano aqui para começar a ver os problemas também!”. E é interessante que eu realmente comecei a reparar mais em certas coisas. A sociedade como um todo não é a culpada, culpadas sim são as idéias criadas e replicadas durante gerações.

Bom, eu só tive vontade de escrever sobre o tabú do aborto hoje depois que assisti a esse vídeo que foi gravado em 1998 pela ABC Australia, dizendo que a Associação Médica japonesa havia condenado a pílula desde o começo e a baniu do Japão durante mais de 30 anos. Ela só apareceu de fato muito depois e a versão “legalizada” do remédio era de um comprimido de alta dosagem que os médicos só receitavam em casos muito graves. Como se isso já não bastasse, eles NUNCA haviam promovido a pílula anticoncepcional para as mulheres. E JAMAIS houve uma campanha de saúde pública explicando a elas quais eram as vantagens e desvantagens. Enfim, segundo a reportagem acima as japonesas “sabem por intuição que a pílula não é uma coisa boa”. “Elas acham que não é uma coisa natural” diz a ativista japonesa, Midori Ashida, que acompanha a jornalista na reportagem. Para me deixar ainda mais revoltado, um médico diz que vetaram a pílula porque isso acabaria com o imenso mercado de abortos que em 1998 era de mais de 300 mil por ano. As autoridades da época diziam que se a pílula se tornasse um método eficaz de evitar os bebês, as mulheres se tornariam promíscuas. Na hora em que a repórter fala isso, ela está andando pelos arredores de Kabukicho em Shinjuku, o chamado “bairro da luz vermelha”, onde as placas de sexo fácil estão escancaradas do lado de fora dos estabelecimentos. Na reportagem eles mostram um No Pan Pub (ノーパンパブ), um barzinho onde os executivos japoneses saídos do trabalho vão para o chamado Nomikai (飲み会 ), o Happy Hour. Esse nome vem da palavra No Panties (sem calcinha), ou seja, as atendentes são formadas por mulheres vestidas de colegiais que servem bebidas aos homens sem calcinhas. E sim, é permitido olhar por baixo das saias!

No Pan Pub é tão comum que vira motivo até de piada na mão desses comediantes!

Não sei se deu pra notar, mas o vídeo lá em cima não está criticando o mercado do sexo no Japão e nem eu! O que se critica aqui é a contradição de se dizer que a pílula fará as mulheres promíscuas quando o negócio do sexo no Japão é um dos maiores do mundo e é dominado pelos homens. É exatamente aquilo que eu dizia sobre a pesquisa que diz que o japonês é um dos povos que faz menos sexo no mundo. Talvez até seja, certamente não com seus parceiros. Se a pesquisa levasse em consideração locais como Kabukicho, certamente, teria outro rumo.

Enfim, confirmaram em forma de reportagem uma coisa que eu descobri em um papo no barzinho. Nunca tinha sequer pensado que haveria no Japão uma mentalidade tão retrógrada e hipócrita quanto ao uso das pílulas anticoncepcionais. Muito triste.

Ah, resolvi procurar informações sobre Midori Ashida, a ativista do Professional Womens Coalition of Sexuality and Health, que foi entrevistada nesta matéria. Ela já escreveu muito sobre o assunto e sua “coalizão” foi reconhecida como a maior autoridade em relação a saúde sexual das mulheres japonesas. Entre as coisas que a associação tem que enfrentar está a burocracia de um governo quase que majoritariamente masculino e que, depois de muita discussão aprovou no Japão métodos ditos “não-modernos” de esterilização e de contracepção para as mulheres japonesas. Só que, mesmo tendo aprovado os métodos, os planos de saúde se recusam a pagar pelo atendimento para que a pílula seja prescrita. Isso tudo ainda tem que sair do bolso da mulher. Talvez seja isso que deixa o método contraceptivo muito mais caro no Japão.

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Jizo-Sama: Cada estátua deste deus representa uma criança que morreu ou foi abortada

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6 comentários Adicione o seu

  1. Eduardo Russo disse:

    Belo post cara! Sempre falo que o Japão é a maior mistureba entre o novo e o antigo, o pudico e e o pornô! Os caras compram calcinha usada de colegial e escondem o “sexo” de seus filmes pornôs!

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  2. Felipe disse:

    Nossa, triste mesmo saber disso. Mas me despertou uma curiosidade… o que os japoneses pensam em relação à camisinha?

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    1. penpas disse:

      Oi, Felipe.

      Em relação a camisinha, todas as pessoas de lá que eu conheci a utilizam normalmente. É o único método contraceptivo eficaz por lá e que evita doenças. Não existe outro método que seja acessível a homens e mulheres.

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  3. Petra disse:

    Bem, que o Japão é uma sociedade patriarcal e machista, todos sabem.

    É lamentável, mas não me espanta que algo que ajudaria na independência da mulher (como é fato que foi essencial no Ocidente durante a revolução sexual) tenha sido tão reprimido por lá.

    Não sei, claro, se é “só por isso”. Como o Renato mesmo levantou no texto, tem a questão do mercado de aborto no Japão, extremamente lucrativo e tal. Mas de verdade, não me espanta, quando penso que uma das cláusulas de contrato para certas idols e mesmo as atrizes de Takarazuka fazerem carreira, até onde eu saiba (e já vi sendo comentado em alguns lugares) é que “é necessário manter-se casta enquanto estiver trabalhando com sua imagem”. (Sei que com idols como as Morning Musumes e as atrizes da cia Takarazuka Revue isso procede).

    Acredito que essa seja uma das razões por trás da indústria do aborto ter se tornado mais forte do que um filão que poderia ser explorado pelas indústrias farmacêuticas. (Se bem que já ouvi falar que o sistema de saúde no Japão é ruim — isso procede?)

    O mais triste nessa história é o esquema do mercado de aborto. Vou ser sincera: não sou, a princípio, contra o aborto. Mas sou contra a banalização deste. É muito triste que seja mais esperado que uma mulher se “acostume” a idéia de tirar uma vida que está gerando (coisa que uma mulher só devia passar em último caso, porque é anti-natural) do que orientar a tomar um remédio. Mas isso nem precisa ser dito, né…

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    1. Tatiane disse:

      A legalização do aborto mais certo ou mais tarde é banalizada.

      vídeo politicamente incorreto sobre aborto nos EUA

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  4. Wasabi disse:

    Pois é tadinho são tão atrasadas…
    Em contra partida nosso país lidera em número de mães solteiras e gravides na adolecencia.
    Será que nossas pílulas são de farinha?

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