Chuva Negra e o Japão de Ridley Scott

Capa do DVD de Chuva Negra
Capa do DVD de Chuva Negra

Eu me lembro da década de 1990 quando assisti ao filme Chuva Negra (Black Rain, 1989) e como isso pode ser considerado um dos meus primeiros contatos com o que eu imaginava ser o Japão. O filme foi lançado nos cinemas brasileiros no dia 1 de fevereiro de 1990, nesta época eu tinha apenas 11 anos, mas a primeira vez que assisti ao filme mesmo eu devia ter uns 13 ou 14 anos quando ele já estava requentado na Tela Quente.

Só explicando rapidamente… Chuva Negra é um filme de ação naqueles moldes de filmes de antigamente com “Schwarzennegueres” e “Stallones” da vida.

Dois detetives de Nova York, Nick (Michael Douglas) e Charlie (Andy Garcia) são envolvidos em uma guerra entre membros da máfia japonesa, a Yakuza. Depois de prender um dos criminosos, os dois recebem uma ordem para escoltá-lo de volta para a polícia japonesa e assim o levam para Osaka no Japão. O vilão foge e na caçada, os policiais americanos são impedidos pela polícia japonesa e suas regras. Conforme a história vai se desenrolando, Charlie é assassinado e Nick resolve caçar o culpado com a ajuda de um policial japonês que vive na linha entre seguir seus superiores ou fazer aquilo que é certo.

Na época do lançamento, o filme não foi bem de público por concorrer com outros do mesmo gênero.

Nick e Charlie
Nick e Charlie

Bom, o Ridley Scott é o cara por trás de Blade Runner – O Caçador de Andróides que virou clássico de ficção-científica no mundo inteiro e até lá já mostrava um pouco do interesse do diretor pelo Japão. Só estou citando este exemplo porque se você assistir ao Chuva Negra vai achar que eu sou algum maluco. “Imagina o Renatinho com 14 anos achando que o Japão é aquilo que o Ridley Scott mostrou no filme”! Eu explico.

Chuva Negra mostra uma Osaka escura, suja e com visual retrô. Além disso, tudo dentro das cenas é exagerado e estranho. Eu me lembro que quando o filme mostrava um caminhão japonês, ele era sempre diferente. Anos depois eu descobri que era um Dekotora (デコトラ) , que vem da palavra inglesa Decoration Truck ou “caminhão decorado”. Não se sabe ao certo como os Dekotora surgiram por lá, se foram feitos pelos motoristas cansados de dirigir sempre o mesmo veículo ou se foi criado por algum designer e virou mania logo depois.  Enfim, o Dekotora existe mesmo, mas não são TODOS os caminhões que são desse jeito.

DEKOTORA - Os caminhões japoneses decorados!
DEKOTORA - Os caminhões japoneses decorados!

Outro dia eu pude rever o filme e me dei conta dos choques culturais que existem dentro dele, algo que acontece em quase todas as produções que mostram ocidentais e orientais interagindo. Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a intolerância da polícia japonesa em relação aos “bárbaros”, os policiais americanos violentíssimos. A primeira questão foi a retirada das armas, pois é proibido portar armas no Japão. E isso é verdade! Depois se aprofundando mais ainda no filme acontece toda uma discussão moral sobre dois termos japoneses, o Honne e o Tatemae. Acho que já falei disso aqui, mas não custa relembrar. Honne é a opinião que você tem acerca das coisas e que necessariamente pode não ser a mesma do resto, enquanto que o Tatemae é a opinião da sociedade. Como o Japão tem uma sociedade onde o coletivo é mais importante do que o indivíduo, o Tatemae sempre prevalece enquanto o Honne acaba sendo suprimido.

Masahiro Matsumoto: “Perhaps you should think less of yourself and more of your group, try to work like a Japanese. I grew up with your soldiers; you were wise then. Now – music and movies are all America is good for. We make the machines, we build the future, we won the peace”.
Nick Conklin: “And if there was ONE of you guys who had an original idea, you’d be so tight that you couldn’t even pull it out of your ass!”

Em determinado momento do filme, o policial Nick passa a investigar os crimes com o oficial japonês Masahiro (Ken Takakura) que sofre exatamente com essa definição que eu dei acima. Masahiro sabe que Nick está certo, apesar dos outros policiais japoneses não aceitarem a opinião do americano, portanto ao decidir ajuda-lo o oficial acaba afastado do cargo e perde o respeito de seus companheiros da delegacia de Osaka.

Fora isso, um dos grandes líderes da Yakuza, Sugai, só aceita que Nick prenda o vilão, depois que ele diz que é o único no país que pode quebrar as regras por ser um “bárbaro”; um gaijin.

Foto do filme japonês Kuroi Ame (Black Rain) sobre a bomba atômica
Foto do filme japonês Kuroi Ame (Chuva Negra) sobre a bomba atômica

Em uma das cenas do filme Sugai diz uma coisa marcante que resume o título do filme que é: “I was 10 when the B-29 came. My family lived underground for three days. We when came up the city was gone. Then the heat brought rain. Black rain. You made the rain black, and shoved your values down our throats. We forgot who we were. You created Sato and thousands like him. I’m paying you back”.

Traduzindo: “Eu tinha 10 anos quando os B-29 vieram. Minha família viveu debaixo da terra por três dias. Quando nós voltamos, a cidade havia desaparecido. Então, o calor trouxe a chuva. Chuva Negra. Vocês fizeram a chuva negra e nos enfiaram seus valores garganta a baixo. Nós esquecemos quem nós éramos. Você criou Sato e milhares como ele. Eu só estou dando o troco”.

Outro fator que me deixa embasbacado com esse filme é a trilha incidental que pra mim é a melhor coisa. Toda vez que eu penso no Japão essa música toca na minha cabeça. E se eu não me engano, a Globo andou usando bastante essa música em reportagens que envolviam alguma coisa relacionada a Terra do Sol Nascente.

Um fato interessante: o ator Yusaku Matsuda que interpretou Sato, o cruel vilão (se você já assistiu sabe que fica odiando o cara do começo ao fim do filme!) tinha câncer na bexiga durante as gravações. Mesmo sabendo que sua situação se agravaria com o trabalho ele disse a mídia: “Dessa maneira eu vou viver para sempre”.

O ator morreu no dia 9 de novembro de 1989 aproximadamente 7 semanas após a premiére do filme nos Estados Unidos.

Na realidade, em Osaka, onde supostamente se passa filme, as pessoas parecem ser mais alegres e divertidas do que em outras partes do país. Eu estive em Osaka apenas por um dia para ir a Universal Studios, nunca sequer fiz um passeio. Isso é algo que eu tenho que fazer um dia.

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