Tom Clancy`s Ghost Recon: Wildlands – o patinho feio dos jogos de março

Eu ainda tô tentando entender como a Ubisoft consegue colocar no mercado dois jogos de mundo aberto em um período pouco maior que 6 meses entre um e outro. Também queria saber como ela entra neste sanduíche de títulos triple A com um game que tem as mesmas mecânicas e estilo de quase todos os outros que já lançou. Fica difícil ganhar a concorrência, mesmo com um bom jogo.  Mas vamo lá!

Em Wildlands você encarna um agente homem ou mulher (dá pra escolher a aparência no começo), que  foi destacado para uma equipe de elite enviada a Bolívia para acabar com o cartel Santa Blanca que é o quarto maior na lista do tráfico mundial de drogas.

Para que isso aconteça é preciso começar de baixo destruindo toda a base da organização criminosa derrubando seus quatro pilares: segurança, influência, contrabando e produção. Cada um destes pilares possui 4 comandantes, 1 sub-chefe e um chefe. Toda vez que captura ou mata um destes a rede criminosa se desfaz e a equipe fica mais próxima do “chefe dos chefes” o temido narcotraficante El Sueno que saiu do México e começou seu reinado de terror entre os bolivianos.

El Sueno controla uma grande parte do território boliviano com mãos de ferro explorando os habitantes locais com trabalho pesado na indústria das drogas e matando cruelmente todos os opositores de seu negócio sujo. Logo antes do jogo começar já somos apresentados a um vídeo mostrando como esse cara é maluco e seu senso de moralidade é completamente perturbado.

Como agente de campo, o jogador segue ordens de Karen Bowman, a comandante das operações da CIA na região. Ela tem um plano de vingança pessoal contra El Sueno e o jogador será o instrumento para que isso aconteça.

Largado no meio da Bolívia fictícia com seu time, o jogador tem o livre arbítrio de ir e vir pelas diferentes regiões de um mapa gigantesco enquanto recolhe pistas entre os sicários (assassinos do tráfico) para cumprir suas missões.  É um game estratégico de mundo aberto com algumas opções de armas customizáveis, bombas e um drone.

Apertando R1 é possível escolher as ações de seus agentes de campo e dos rebeldes que ajudou

De posse destas armas e dos outros três membros de sua equipe que podem ser seus amigos online ou NPCs, basta invadir, explodir e derrotar um montão de sicários para interrogar e pegar informações de seus subchefes (chamados de Buchon) e de seus chefes (os Narcos) na caçada por El Sueno. Para incrementar seu arsenal dá para fazer missões paralelas onde você ajuda um grupo de rebeldes chamado Kataris 26.

O agradecimento por estas ações revolucionárias vem em forma de ajuda. Em momentos de guerra é possível ir ao menu e escolher o que os rebeldes podem fazer pra ajuda-lo. Eles podem mandar armas, invadir locais com você, mostrar inimigos na tela e até mandar uma rajada avassaladora de morteiros. Contra estes rebeldes está a organização paramilitar chamada La Unidad que é financiada pelo cartel para evitar uma revolução no país.

Basta derrubar dois dos quatro pilares e você já pode ir direto pro chefão


Não precisa de nada disso…

O design de Ghost Recon: Wildlands e os sistemas envolvidos na construção de seu gameplay são absolutamente repetitivos. O jogador literalmente nunca se perde! Apesar do mapa gigante, basta entrar em qualquer uma das regiões dominadas pelo cartel e aparecem pastinhas amarelas no mapa mostrando os locais onde estão pistas que revelam quem está no controle daquele lugar. Abrindo 6 missões, Bowman lhe envia um vídeo com a história de quem o jogador está caçando para você ir lá fazer o acerto de contas.

Fora da missão principal, o jogador não se surpreende com conteúdos diferentes o que acaba se tornando um grande desmotivador. Você nunca vai perder tempo resolvendo um monte de missões secundárias já que nada de divertido vai acontecer ou mudar drasticamente na história. A única recompensa por faze-las é aumentar o poder de comando dos rebeldes, adquirir pontos de habilidade e armas, mas adivinha: não precisa de nada disso. Só o que se recolhe durante as missões principais é suficiente para terminar o jogo.

E derrubando apenas dois “pilares do cartel” já  é possível ir direto pro chefão e ver um dos finais. Depois de completado, um aviso dizendo que há um “final mais completo” aparece para instiga-lo a cumprir as outras missões. Isso significa que fora do principal o resto é tudo só enfeite feito pra você perder tempo.

Para terminar basta repetir estratégias a exaustão. Algumas bases são grandes outras pequenas, mas sua missão é invadir locais fortificados e derrotar sicários durante horas e horas a fio. Há neste jogo o maior mapa de mundo aberto já feito em um game da Ubisoft, o problema é que não tem conteúdo variado o suficiente que o prenda lá.


E a IA (inteligência artificial) dos inimigos é burra. Em alguns momentos principalmente nas primeiras horas de jogo acertei alvos usando armas com silenciador. Eles estavam na frente de outros inimigos vivos que nem se importaram de ver o amigo cair. No entanto ao ficarem alertas, todos os sicários correm atrás do jogador e acertam todos os tiros milagrosamente como se tivessem sido treinados na Academia das Agulhas Negras.

O drone que pode ser usado a todo momento e que faz o papel do “olho de águia” do Assassin’s Creed (a maioria dos jogos de mundo aberto tem um). Explico! Com o drone é possível pilotar o aparelho e usa-lo para encontrar os soldados inimigos em uma área a ser invadida. Localizando alvos é possível dar ordens ao seu esquadrão e solicitar tiros sincronizados em até três alvos ao mesmo tempo. Isso facilita muito a vida.

E bom, La Unidad o grupo paramilitar que combate os rebeldes é basicamente a “polícia” de Wildlands. Se eles forem atingidos por você chamam ajuda e acionam um alerta que os fazem persegui-lo até o inferno. Nada que não se tenha visto em GTA V ou na franquia Watchdogs.

A parte legal: Narco traficantes e uma Bolívia realista

El Pozolero é baseado em uma pessoa real! Ele derreteu mais de 300 cadáveres para o tráfico. O link pra matéria dele na BBC tá no texto abaixo

Imagino que a reunião para falar sobre ideias de um game na Ubi deve ser numa sala com os membros principais da equipe de desenvolvimento discutindo vários aspectos da história e como ela vai se encaixar na mecânica. Neste caso devem ter colocado sobre a mesa milhões de referências a cartel, tráfico, contrabando, Pablo Escobar e as muitas gangues perigosas da América Latina. Juntaram um bolão de reportagens sobre o assunto e foram separando o que era legal de colocar lá. Por fim escolheram a Bolívia como ambientação por ser um dos maiores produtores de coca no mundo. E foi exatamente essa salada que me deixou com vontade de jogar Wildlands.

El Sueno e sua cara exageradamene tatuada

 

Acho que toda a discussão em cima disso é muito interessante. Essas máfias são quase sociedades secretas ultra violentas. Saber como a produção e o contrabando acontecem ou como um narco fica milionário e continua vivendo uma vida de merda é curioso. Não dá pra negar que eles são engenhosos. Fica claro logo no começo que El Sueno é um mexicano que trouxe seu cartel para as partes pobres da Bolívia. As mulheres são calientes e os caras uns canalhas. É caricato e eles deixaram bem claro que é uma visão fictícia.

Obviamente, o jogo da Ubi tá longe de descrever com eficácia os povos dos países latinos porque eles simplesmente misturaram tudo e voilá… Wildlands. Tirando toda a salada mista, a representação das partes interioranas e desérticas da Bolívia, além das vestimentas do povo local estão perfeitas porque foram baseadas na realidade. Isso porque a equipe de desenvolvimento viajou pra lá para captar esses locais. No entanto não há grandes cidades, portanto não espere ver La Paz. Não dá pra negar que o visual do jogo é de encher os olhos.

 

 

O desenho dos personagens é bacana, as tatuagens na cara do El Sueno lembram aqueles membros de gangues perigosas que existem no cu do mundo e as reações do cara me lembram o Pablo Escobar da série Narcos.


Além disso no jogo eles explicam a produção e distribuição da cocaína e o derretimento de cadáveres com lixívia feita por El Pozolero (o cara existe de verdade: veja aqui).

Santa Muerte dá medo, mas os ensinamentos são legais!

E tem até uma religião que venera e distorce os conceitos da santa mexicana Santa Muerte que é sim uma caveira. E tem também uma seita peruana que influencia os fiéis a trabalhar e produzir coca na divisa do Peru com o Brasil, algo parecido acontece com a personagem La Santera.

Faltou mais interação com a história

Não dá pra negar que a Ubisoft sabe criar sistemas sólidos de jogo, eles sabem te direcionar para o lugar certo e te dar os instrumentos para que possa avançar. O que poderia ser melhor desenvolvida é a interação com a história. Você se empolga com as animações mostrando quão foda são os narcos que terá que caçar, mas pára por aí. Eu fiquei com aquele desejo que as perseguições, invasões e combates fossem muito mais viscerais. Gostaria de me sentir fazendo parte daquilo que vi nas animações como em um grande filme de ação. Quem faz isso muito bem é a franquia Gears of War. Queria muito que em momentos decisivos houvesse mais maneiras de fazer parte do que acontece como em Gears.

Só pra você ter uma ideia fui atrás de uma personagem chamada Madre Coca que cuida da produção da pasta base e é uma megera com os cocaleiros, agricultores de coca, na região dominada por ela. Quando invadi o local onde ela estava a batalha não durou 5 minutos já que um dos NPCs da minha equipe acabou com ela no meio do tiroteio. Eu nem vi o corpo, já que nem fazia ideia de onde estava no momento da invasão. What a Fuck! Essa não era uma buchon fodona! Queria muito ter tido uma batalha mais complexa com ela.

Vozes repetitivas e dublagem problemática

Se tem uma coisa que pode piorar a sua experiência em Ghost Recon Wildlands é a repetição das falas dos personagens. Além de um gameplay repetitivo, ouvir as mesmas afirmações toda hora é irritante. Dentro das vilas e nos carros, as pessoas possuem rádios e de lá tem só o pior radialista já inventado. Ele apresenta basicamente quatro músicas que tocam em loop e tem algumas falas terríveis. E esse jogo tem uma dublagem em português muito ruim. Não é porque ela tem erros de português ou factuais, mas porque os atores parecem que estão mortos. Não dá pra reviver nem com um desfibrilador. É sério! Jogue uma granada e ouça o seu personagem gritar “granada” e é possível entender tudo o que to falando. Não tem interpretação. É só um cara lendo uma fala que mandaram. Não tem vida nos seus agentes e muito menos nos buchon. Só se salvam nesta dublagem quem fez a Karen Bowman e o El Sueno. De resto, pode desligar o áudio em português e ouvir o som original.

Eu tinha que matar 4 sicários, mas não sabia que eles voavam e eram invisíveis! Fiquei travado nessa parte!

Se não tem bugs, não é Ubisoft

Sim, novidade, tem bugs! Não é só um nem mil, mas alguns e atrapalham sua vida. Eu já andei no fundo de um rio, meus NPCs nadaram no ar, meus controles travaram e até cai em locais de onde não conseguia sair e que pra não resetar tudo tive que me explodir com C4. Mas o pior foi faltar só uma missão pra fechar um buchon e ela bugar mais de três vezes (a fotinho tá aí em cima!). Desisti! Tá lá até agora enquanto espero a Ubi atualizar pra ver se faço o final completo. Sério!

Os games de mundo aberto estão evoluindo. Novas mecânicas promovem interação maior entre história e gameplay ao mesmo tempo em que instigam a descoberta. Neste quesito, os novos jogos da Ubi precisam refletir estas mudanças pra melhor. Faltou isso pra ser um ótimo jogo e não apenas bom.  Estes primeiros meses do ano nos presentearem com várias surpresas. Eu ainda to tentando entender como saiu tanto jogão em tão pouco tempo. No meio de The Legend of Zelda Breath of The Wild, Halo Wars 2, Final Fantasy XV, Nier: Automata e Horizon Zero Dawn, Tom Clancy’s Ghost Recon Wildlands é o patinho feio. Não é ruim por conta das mecânicas e do multiplayer que vai render bons momentos com os amigos, mas é sim aquele seu colega feio que vai pra balada no meio dos amigos bonitos pra ver se dá sorte de pegar alguém. Ou seja, se nenhum desses outros jogos te atrai ou se ama muito games multiplayer de combate em mundo aberto talvez este seja o seu jogo. Caso contrário, existem várias outras opções ao gosto do freguês.

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