Power Rangers: o filme que reinicia a franquia nos cinemas

Eu gosto de cultura japonesa, assisti um monte de tokusatsu (特撮; seriados de super herói), vi um monte de Power Rangers e vou me esforçar para tentar explicar direito o quanto me diverti com este filme.

Quando anunciaram que os Power Rangers ganhariam um novo filme nos cinemas anos atrás, confesso que uma boa parcela de caras como eu torceu o nariz. Quando saiu o design das roupas então, só piorou.

Voltando um pouquinho no tempo

Mighty Morphin Power Rangers surgiu na tv americana em 1993 de um projeto criado numa parceria feita pela empresa americana Saban Entertainment e a Toei Animation, maior produtora deste gênero no Japão. O lance era “ocidentalizar” os seriados japoneses de super-heróis e capitalizar com a venda de produtos para crianças fora da Terra do Sol Nascente onde as empresas por lá já fazem a festa.

Curiosidade: Antes da Saban, Stan Lee já tinha tentado fazer isso na Marvel, comprando direitos de séries japonesas e ocidentalizando-as, mas o desinteresse dos canais de tv em exibi-las nos EUA acabou minando o negócio.

O gênero chamado de sentai (船体 ou esquadrão de super-heróis) no Japão tem mais de 30 anos e as séries mudam anualmente para que novos brinquedos sejam lançados. Segundo um dos produtores da série, Saban e Toei negociaram isso por mais de 3 anos esperando a hora certa de tentar algo. Isso porque uma boa parte das séries da época eram culturalmente difíceis de adaptar e algumas tinham até temas sombrios demais para as crianças ocidentais. Isso mudou em 1992 quando surgiu por lá Kyoryu Sentai Juranger (恐竜戦隊ジュウレンジャー ou Esquadrão Dinossauro Juranger). Com o filme Jurassic Park saindo em 1993, Saban viu a oportunidade e correu para produzir o seriado. Fez um casting com mais de 800 jovens e escolheu os 5 que seriam os heróis.

Os clássicos bonecos que viravam a cabeça!

Nas primeiras temporadas, os jovens atores gravaram diariamente por mais de 12 horas por dia e ganhavam cerca de US$2500 por mês. Sem serem sindicalizados nunca tiveram direito a nenhuma porcentagem da venda dos brinquedos (tá, mas isso é outra história!).

Bom, em agosto de 1993 era lançado pela Fox Kids (único canal a cabo infantil que topou exibir nos EUA), Mighty Morphin Power Rangers com episódios de 20 minutos. A série simplificava a história japonesa, retirava os atores orientais, mas reaproveitava todas as cenas de ação. Se você não fosse uma criança na época conseguia saber exatamente o momento em que as cenas do original eram utilizadas. Dá pra tirar a prova no Netflix.

Imagine que um brasileiro pegasse os direitos de Dr. Who e quisesse transforma-lo em uma série brazuca.  Foi tipo isso aí que aconteceu! Tinha tudo pra dar errado!

Era um remendo gigante, mas explodiu em um sucesso incrível sendo exportado para o resto do mundo. Dizem que o lucro atual já chega na casa dos bilhões de dólares em produtos vendidos anualmente ao público infanto-juvenil.

Para nós brasileiros que já tínhamos sido apresentados aos heróis japoneses como National KidUltraseven, Ultraman, Jaspion, Kamen RiderJiraya, Cybercops e Changeman ver Power Rangers era meio esquisito.

Goldar é o monstro gigante

Power Rangers ou qualquer outra série dessas tem um esquema de episódios que é sempre igual. Monstros tentam invadir a Terra, heróis de colant e capacete tentam dete-los e são derrotados na primeira batalha. Heróis descobrem como derrotar os monstros. Rola uma luta entre um monstro e um robô gigantes. Apesar da destruição da cidade o bem vence. É a jornada do herói versão 20 minutos! É repetitivo e sem muita explicação, mas eu adorava. Aliás, as crianças ainda adoram.

As cinco “moedas” que levam o poder dos heróis

Agora como levar isso pro cinema em pleno século XXI? 

O filme dos Power Rangers abre introduzindo ao espectador uma espécie de “guerra alienígena” pelo controle da Terra. Cinco “moedas” são perdidas. Um tempo se passa e chegamos aos dias atuais, Jason Scott (Dacre Montgomery) apronta uma das suas e acaba indo para a “detenção” da escola, onde estão outros dois personagens. Daí em diante a narrativa passa a contar como os 5 jovens se conhecem. Coisa que o seriado de tv nunca conseguiu.

Zordon é interpretado por Bryan Cranston

Os jovens são então apresentados a Zordon (Bryan Cranston), um ser interdimensional e seu companheiro o robô Alpha 5 (Bill Hader). Lá eles descobrem seu destino como “defensores da Terra”. Em paralelo a isso, Rita Repulsa (Elizabeth Swan) aparece e quer o controle do planeta através de um cristal que está escondido. Já é de se imaginar como acaba, certo?

O que não dá pra imaginar é o quanto este roteiro escrito por Matt Sazama (de Dracula Untold e Deuses do Egito) e John Gatins (de Gigantes de Aço, Need For Speed, Kong: A Ilha da Caveira e Coach Carter) agrada a nova geração de adolescentes fãs de filmes fantásticos e também aos adultos babões que eram moleques na época do seriado. É impressionante.

Os 5 jovens escolhidos para serem os rangers não são mais aqueles jovens perfeitos que malham na academia de Alameda dos Anjos. Eles são problemáticos como em Clube dos Cinco (Breakfast Club,1985), mas seus problemas refletem os jovens de hoje. Problemas psicológicos, solidão, dúvidas sobre o futuro e a sexualidade. Ao aprofundar cada uma de suas histórias, o roteiro ganha corpo e dá complexidade a trama. O tom de tudo é sombrio (lembra do que disse acima sobre os seriados japoneses?) como em histórias de ficção-científica, o filtro de algumas cenas tenta aterrorizar, mas a presença dos jovens e as constantes brincadeiras deixam tudo leve e divertido. A mensagem de superação, confiança e amizade vai sendo desenvolvida como na tv.

Rita Repulsa e seu cajado maligno

 

Conforme o escopo da trama vai crescendo ao final do segundo ato, somos apresentados a mais e mais fan service. Quem assistiu a série sempre teve dúvidas sobre muitas coisas que no filme tentam ser respondidas. Quem era o ranger verde antes do Tommy? Porque Rita tem interesse em Alameda dos Anjos e não no resto do mundo? Como os rangers se comunicam dentro dos robôs? Porque os robôs tem forma de dinossauros? Todas essas coisas são respondidas de forma sutil.

O maior problema no entanto estão nos erros de continuidade que são muitos. Tantos que é possível repara-los gritantemente no filme. Bom, e tem o design das roupas que nunca vou me conformar. Mas fora isso, o filme voltado ao público adolescente é surpreendentemente bom! Uma história que cria uma nova franquia nos cinemas ao mesmo tempo que elogia as produções japonesas de onde o gênero dos heróis de colant saíram. Que venham mais filmes assim!

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