Crítica: Ghost in The Shell – A Vigilante do Amanhã

 

 

 

 

 

Tive a oportunidade de assistir duas vezes e tenho que confessar que gostei bastante deste filme. Ele tem alguns problemas na narrativa, na interpretação de alguns atores e nesse subtítulo ridículo em português, mas é certamente e sem sombra de dúvida a melhor adaptação de uma obra dos quadrinhos japoneses para o cinema americano.

E não só por  “traduzir” a linguagem para quem nunca ouviu falar desta que é uma das maiores obras de ficção-científica já criadas no Japão, mas por nos mostrar na tela do cinema um vislumbre do futuro incrível descrito pelo autor há 26 anos.

O mangá pode ser encontrado no Brasil publicado pela editora JBC

Publicado em 1991, o mangá de The Ghost In The Shell chegou as livrarias daquele país desenhada e escrita por Masamune Shirow, um jovem autor que já havia escrito outras histórias futuristas antes, mas nenhuma delas havia viajado o mundo inteiro como GiTS faria. Dizem que isso só aconteceu porque naquela época a internet já engatinhava nos Estados Unidos e no Japão, portanto uma história sci-fi que tentava prever o futuro de um mundo conectado atraiu bastante atenção.

Na obra somos apresentados a Motoko Kusanagi que se diz ser a major de uma equipe comandada pelo chefe da segurança pública, Daisuke Aramaki. Juntos eles lutam contra crimes de ciberterrorismo na Seção 9 (departamento de defesa) do governo japonês. No futuro descrito por Shirow, o mundo está conectado por redes de informação velozes controladas por megacorporações que vivem uma disputa para desbancar concorrentes em seus negócios (tá explicado porque há crimes virtuais!).

Nesta época, para ter acesso ao fluxo incrível da rede não são necessários só computadores já que com avanços significativos na medicina a mente humana não é mais um mistério e é possível conectar o cérebro humano diretamente na internet para absorver ou trocar informações.

Além disso, próteses que antes eram usadas apenas para repor órgãos e partes do corpo humano perdidos por doenças ou acidentes já são usados livremente para aperfeiçoá-lo. E é muito comum fazer este tipo de troca. É quase como vemos a plástica hoje. Um procedimento cirúrgico capaz de nos fazer melhores. Obviamente que com todo este avanço existem pessoas que trocaram todo o corpo por partes cibernéticas, estes são os ciborgues, como a protagonista Motoko.

No mangá cada capítulo mostra uma história de crime cibernético desvendado e resolvido pela equipe da Seção 9. Todas altamente tecnológicas e recheadas de notas de rodapé que tentam explicar como tudo funciona. Para falar sobre como seria o futuro, o autor tirou toda sua inspiração de livros de ciência e de tecnologia publicados na época. Não havia wikipedia, youtube, nem google. Aliás, computadores eram para poucos. As conexões de internet eram caríssimas, lentas e não havia o volume de informação que temos hoje. O cara foi um visionário em seu próprio tempo. Para você ter uma ideia, na época em que nem se falava em nanotecnologia, Shirow já usava em seus quadrinhos e chamava de “micro mecanização”.

Assim como Blade Runner – O Caçador de Andróides de 1982 havia imortalizado a obra de Philip K. Dick nos cinemas, o impacto gerado pela obra de Shirow pulou dos mangás para um longa-metragem animado pelas mãos do diretor Mamoru Oshii em 1995. A animação tomou a liberdade de pegar algumas das melhores cenas da obra de Shirow para criar o universo futurístico da Major. Oshii deu um toque cruel, escuro e contemplativo para tudo o que Shirow havia criado. Não é preciso nem dizer que explodiu em popularidade inspirando livros, filmes, outras séries de anime e hqs pelo mundo afora.

E foi assim que em 2008, Steven Spielberg conseguiu os direitos para fazer um filme live action de Ghost In The Shell. 30 de março de 2017, cerca de 9 anos depois, o filme com direção de Rupert Sanders, produção de Avi Arad e com Scarlett Johansson no papel principal chega aos cinemas.

A versão holywoodiana de Ghost In The Shell

“não se prenda ao que criamos, faça o que tem que fazer. Torne-o seu também”


Enquanto produzia o filme, Rupert Sanders reuniu o diretor Oshii (da animação de 1995) e Kenji Kamiyama, da série Stand Alone Complex para pedir conselhos. O que ele ouviu de Oshii foi “não se prenda ao que criamos, faça o que tem que fazer. Torne-o seu também”. E foi assim que Rupert conseguiu a “benção” para poder criar sua visão do universo hollywoodiano de GITS. Tá, já sei que você vai me perguntar porque ele não falou com o Shirow né? Pois bem, o criador do mangá é quase um ermitão. Não gosta de conversar, não dá entrevistas e vive tranquilamente na cidade em que nasceu, Kobe, sem nunca sequer ter mostrado o rosto na vida. Fica lá de boas recebendo a grana do licenciamento da obra que criou. Uma das poucas entrevistas que existem dele foi feita por Frederik L. Schodt, um grande estudioso da cultura japonesa em 1998. E isso só aconteceu porque Frederik foi o tradutor das obras de Shirow no ocidente. Se tiver curiosidade, leia a entrevista em inglês aqui

Como o filme é baseado em algo com temática complexa tudo é muito mais explicado que o normal para ser facilmente interpretado pelo espectador.

Em Ghost in The Shell – Vigilante do Amanhã somos apresentados a Major “Mira Killian” (Scarlett Johansson) uma ciborgue, única de sua espécie, que junto com a Seção 9 se vê envolvida na caçada por um criminoso virtual que está assassinando altos executivos da megacorporação Hanka Robotics que curiosamente foi a responsável por cria-la.

Enquanto recolhe pistas sobre o ciberterrorista ela se envolve em um mistério sobre sua própria origem. A história se desenrola desta maneira focada sempre em torno da protagonista. Isso apesar dela ter uma equipe que, com exceção de Batou (Pilou Asbaek) e de seu chefe Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano numa atuação típica!), fica apenas como suporte no elenco. Togusa (Chin Han) que aparece bastante na animação de 1995 quase não tem falas. Saito (Yutaka Izumihara) o sniper da equipe tem literalmente 3 segundos na tela. Ishikawa (Lasarus Ratuele) o especialista em tecnologia aparece em poucos momentos e nesta versão é um mestiço. E temos a introdução de uma outra mulher a equipe chamada Ladriya (Danusa Samal).

No mangá, com exceção da Motoko, todos os integrantes da Seção 9 são homens japoneses, por isso achei legal esta variação nos personagens, pois dá diversidade a trama. Só é uma pena que eles apareçam tão pouco.

Alguns agentes da Seção 9

Takeshi Kitano fala japonês o filme todo, enquanto os outros personagens respondem em inglês como se estivessem entendendo tudo. O resultado é bastante interessante, é como se em um mundo onde podemos fazer upload de informações diretamente em nosso cérebro compreender um outro idioma não fosse mais um problema.

Outra coisa que gostei bastante foi a atenção aos detalhes da cidade onde se passa a história. Em nenhum momento é dito seu nome. É apenas uma metrópole misto de capital japonesa e chinesa. E Shirow revelou que, apesar do Japão ser “fechado” a influências externas, para ele seu país do futuro seria tão multiracial quanto qualquer outro no ocidente. Nesta época ele já previa a globalização e por isso suas cidades ao invés de limpas e organizadas são superpovoadas, bagunçadas e confusas.


Além de tudo isso que falei, para agradar aos fãs das outras mídias, o filme faz homenagens ao primeiro longa metragem animado de Oshii, a série Stand Alone Complex e ao segundo longa Innocence. Algumas das sequências de ação são idênticas por conta disso.

Tem muitas homenagens a animação na produção

 

É uma história de origem!

Enquanto nas nas obras japonesas existe uma certa subjetividade colocada na hora certa que faz com que nós tenhamos que interpretar o que acontece. Neste filme, tudo é exposto logo de cara. E na tela grande isso funciona.

As únicas partes que me incomodaram no filme acontecem quando no roteiro não se encontram maneiras mais inteligentes ou interessantes de se resolver certos aspectos da trama e a edição faz isso de maneira boba a duvidar da inteligência do espectador. No anime apesar do ritmo ser muito diferente a resolução da trama se encaixa perfeitamente.

Confesso que gostaria também que a major deste filme fosse mais como a dos mangás. Nos quadrinho ela é irônica, mal educada e violenta, como todos os “mocinhos” que apareceram nos filmes da década de 1990. No entanto no filme ela fica cheia de dúvidas e age de forma confusa. E a culpa não é da interpretação da Scarlett, mas da maneira como a personagem foi escrita.

A origem da Major nunca foi revelada detalhadamente na obra original e nem nas animações. Tudo o que aparece sobre isso são pequenas informações sem nunca se aprofundar muito.  Sabe-se que ela é uma ciborgue que caça terroristas e que por possuir um corpo mecanizado é mais forte e ágil do que uma pessoa comum. E é basicamente isso. O  mangá começa com uns dizeres assim: “essa é a major Motoko Kusanagi, mas talvez ela não seja nem major. No mês passado dizia que era tenente. Talvez Kusanagi nem seja o nome dela”. Alguns fãs dos quadrinhos especulam até que ela poderia ter sido um homem com cérebro transplantado no corpo de uma mulher. Por isso contar como surgiu a personagem quebra o paradigma do mangá de forma inédita, mas dá pra entender, já que a ideia é apresentar o universo futurístico de Ghost In The Shell e criar uma franquia nova nos cinemas.

“essa é a major Motoko Kusanagi, mas talvez ela não seja nem major. No mês passado dizia que era tenente. Talvez Kusanagi nem seja o nome dela”

Para narrar o surgimento da ciborgue os roteiristas colocaram uma corporação malvada e adicionaram um vilão do canôn que tivesse uma ligação com a major. E assim inseriram Kuze (Michael Pitt)  na trama. Obviamente sua história é completamente diferente da original. O Kuze deste filme é  uma mistura de suas características do anime com a de outro vilão, o Mestre dos Fantoches do filme de 1995.

O diretor do filme, Rupert Sanders, revelou em uma entrevista antes do lançamento que se sentiu como um dj mixando uma nova história a partir de algo que já existia. Confesso que quando li isso fiquei com medo da coisa toda ser uma porcaria, mas incrivelmente não é.

No geral, curti bastante a proposta deste filme. Apesar de ter lido o mangá e visto as animações, eu confesso que não queria que fosse uma cópia do original. Curto essas releituras e essa em especial é bem boa. Acho interessante como as estéticas refletem cada época. O mangá tem um estilo diferente dos animes que são diferentes deste filme.  Em A Vigilante do Amanhã, a
certaram a mão no intuito de popularizar a obra, por isso fico empolgado com o que pode vir por aí no futuro.

E os animes e mangás vão continuar aí para serem vistos, revistos e inspirar muitas outras obras.

Algum esperto colocou a versão original de 1995 no YouTube legendada em português. Acho que deve sair logo, mas se der tempo de assistir é só dar play aí embaixo e ser feliz.

Minha opinião sobre “White Washing”

Essa polêmica amplamente comentada em Hollywood por atores e atrizes de origem asiática é muito delicada, mas neste filme ela não se justifica.  Neste caso, essa questão se resolve no próprio filme. Os roteiristas incluíram um plot twist na história para explicar o que acontece. Sabemos pelos mangás que a major é um cérebro transplantado em um corpo fabricado por uma empresa de tecnologia. No filme ela foi criada para ser uma “arma”. Como o corpo dela foi construído ele pode muito bem ser de uma oriental ou de uma ocidental. Não faz diferença.

Isso é tão aparente nas obras originais que no filme de 1995, quando Motoko tem seu corpo destruído Batou salva seus dados e a coloca no corpo de uma menina, o único corpo disponível que ele conseguiu. No mangá quando isso acontece os dados do cérebro de Motoko vão para o corpo de um travesti. Ou seja, não importa o corpo desde que ela tenha sua mente preservada.

Motoko tem sua mente transplantada para o corpo de um travesti nos mangás

Obviamente a escolha de Scarlett Johansson para o papel de Major foi mercadológica. Foi feito porque a fama da atriz atrairia mais pessoas aos cinemas, isso é fato. E pensando sobre isso não consigo imaginar uma atriz asiática tão relevante quanto Scarlett Johansson em Hollywood para pegar o papel.

Em um país como o Japão atores japoneses importantes e relevantes são escalados para interpretar papéis ocidentais o tempo todo. E lá a questão também é mercadológica. Tomo como exemplo o personagem Edward Elric do filme de Fullmetal Alchemist que será interpretado por um ator japonês de peruca amarela. Na Ásia é mais importante ter atores asiáticos no papel e assim o fazem também.

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Joao disse:

    alguma posiçao sobre whitewashing?

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    1. Oi João,

      Então eu nem escrevi sobre isso na crítica porque já falaram tanto sobre isso… A minha opinião é a de que essa questão se resolve no próprio filme. O diretor fez questão de incluir um plot twist na história para explicar isso. Obviamente a escolha de Scarlett Johansson para o papel de Major foi feito porque a fama da atriz atrairia mais pessoas aos cinemas, isso é fato. Só que ao mesmo tempo, a Motoko foi feita nos mangás como uma ciborgue: é um cérebro inserido em um corpo fabricado. Esse corpo fabricado poderia ser ocidental ou oriental. Os roteiristas poderiam ter tomado esta liberdade.
      Não consigo pensar em uma atriz japonesa relevante em Hollywood com inglês fluente e que pudesse fazer o papel da Major e chamara tanta atenção quanto a Scarlett.

      Fora isso essa questão de White Washing e apropriação cultural é muito delicada. Em um país como o Japão atores japoneses importantes e relevantes são escalados para interpretar papéis ocidentais o tempo todo. E lá a questão também é mercadológica. Tomo como exemplo o personagem Edward Elric do filme de Fullmetal Alchemist que será interpretado por um ator japonês de peruca amarela. Na Ásia é mais importante ter atores asiáticos no papel e assim o fazem também.

      Acho que vou incluir isso no texto da resenha.

      Curtir

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