Trabalhar com cultura pop é emprego de verdade?

Renato Siqueira e Pablo Miyazawa na Conrad Editora (em 2000)
Renato Siqueira e Pablo Miyazawa na Conrad Editora (em 2000)

Tá aí uma coisa pela qual eu vivo me questionando…

Nos últimos três meses eu estive me dedicando a acertar muitas coisas para um evento de cultura pop japonesa que eu adoro fazer. A minha função, pelo menos para mim, parece simples que é: “negociar e viabilizar alguns dos projetos de atrações do evento”. Eu sou aquele carinha nos fundos do palco, olhando a lona se abrir e o show começar. Sou o cara que vai cobrar da banda e dos cantores um último ensaio final para ver se está tudo certo. E eu gosto muito disso. Não faço questão de aparecer em público e acho que até para que o meu trabalho dê certo é bom ficar um pouco distante da galera.

Durante os últimos 3 anos estive me dedicando especificamente a trazer os cantores japoneses para Fortaleza, o evento é o Sana que todo mundo conhece. Até o momento, os shows têm sido muito bem sucedidos e o público em “nosso” evento (depois de 3 anos acho que posso falar que também sou parte dele!) tem aumentado cada dia mais. Reclamar, sempre tem gente que reclama. Elogiar, sempre tem gente que elogia. No geral é gratificante receber comentários do público porque significa que: “Sim, estamos fazendo algo! E, pra bom ou pra mal, as pessoas estão participando!”.

Eu sou frequentador de eventos desde a 1996, quando os eventos ainda eram formados por grupos de amigos que se reuniam para trocar cards, assistir animes e discutir as últimas notícias das revistas sobre o assunto. Eu acho que posso dizer que entendo um pouquinho desse mercado que nós criamos. Existe sim, um mercado de cultura pop japonesa, que apesar de muito comentado ainda é underground, mas um “undergroud popular”. Será que existe isso? Bom, o evento no qual ajudo a organizar reuniu no ano passado cerca de 40 mil pessoas em três dias. Foram consumidos milhares de refrigerantes e sanduíches, foram comprados milhares de chaveiros, camisetas, adesivos, jogos de videogame, mangás e etc. Mas continuo dizendo que esse é um “mercado só nosso” porque investidores de grande porte não fazem idéia de como investir nisso. 40 mil pessoas é muita gente! Com boa mídia e pouco investimento é possível arrebanhar muitos fãs.

Mas enfim não é bem disso que eu queria falar…

Voltando do Japão no ano passado, eu me propus a fazer algumas coisas. A primeira era prestar uma bolsa de estudos de pós-graduação do governo japonês com um assunto que eu adoro que é a cultura pop japonesa, mas com um projeto contemporâneo e diferente do que outras pessoas do meio já fizeram. Como era de se esperar, não passei!..rs.. Eu criei o projeto confiando no que o primeiro ministro andou dizendo nos últimos tempos e acho as palavras dele muito válidas, mas creio que no Brasil isso ainda não chegou nas mentes da elite e nem de quem realmente decide as coisas. Mas tudo bem. (Sim, tem um pouco de dor de cotovelo nessa parte, confesso!)

Evento de mangás da Shonen Jump - Jump Festa em Tóquio (2008)
Evento de mangás da Shonen Jump - Jump Festa em Tóquio (2008)

A segunda coisa que eu prometi para mim mesmo foi tentar mudar levemente o conceito do evento que estou fazendo. Não quero que o Sana se torne apenas um amontoado de gente espremida num lugar quente sem nada para fazer a não ser aguardar pelo show de cantores internacionais no fim do dia.Você que vai a algum evento de cultura pop japonesa, consegue perceber que ele é realmente de cultura pop japonesa? Antigamente, a gente sabia, mas hoje não dá mais pra perceber isso.

É por isso que eu quero que o evento, além de fazer a nossa juventude se divertir, faça ainda as pessoas pensarem, tornando-se um ponto de referência brasileiro em relação a eventos deste estilo e porte. Com a ajuda dos outros organizadores e seguindo os conceitos propostos pela fundação, o Sana deve mudar sempre. E eu pretendo ajudar nisso.

Mas pensando na minha dedicação pra esse tipo de trabalho é que a voz da minha mãe entra na minha cabeça:“Filho, vá procurar um trabalho decente e que te dê condições pra sobreviver. Você tem um diploma, fala outro idioma, é inteligente e tem condições de viver muito bem”. Essa já é pelo menos a décima vez que ela me fala isso. E o pior de tudo, ela tem razão. Acho que fazer eventos deste tipo no Brasil e se dedicar a isso é pedir para morrer lentamente de fome..r.s.. Por isso, eu vivo pensando que para fazer disso um trabalho é pelo menos necessário “não passar fome”. E tá aí uma coisa em que eu penso constantemente. Eu posso trabalhar com isso, mas quais serão os meus passos para fazer disso um bom ganha-pão, algo que não me torne um trabalhador informal e que me faça ter uma garantia de futuro. Parece uma utopia, não é? Mas acho que ter condições é o único jeito que vejo as coisas acontecendo por aqui. Se dá condições a outros porque não dará para mim.

No ano passado, eu ajudava a organizar o show do Sana 8 e, ao mesmo tempo, trabalhava em um portal de internet com um salário até que bom. Só consegui isso por ter muitos anos de trabalho (9 anos?) em editoras, sem o devido diploma de jornalismo que tanto gera polêmica. Para mim, essa derrubada da obrigatoriedade do diploma só serviu pra legalizar o meu trabalho que era feito “com ou sem diploma” de qualquer maneira. Isso graças a muitos contatos e amigos que cultivei durante todos esses anos.

Pois bem, faltam exatas 4 semanas para o evento e a correria sempre começa nesta época. É como tentar colocar no lugar muitas peças de um quebra-cabeça passando por uma enorme pressão. E hoje me liga um amigo dizendo algo assim: “Oh, o fulano está indo trabalhar no portal do conglomerado X e eles ainda precisam de mais umas pessoas e estão pensando em te chamar, o que você acha?” Bom, não precisa dizer que eu fiquei felizão por terem lembrado de mim, mas aí me veio o evento na cabeça e como vou fazer se pretendo me dedicar e blá blá blá. E como fazer isso é algo que eu gosto e tal. Ai que droga pensar assim. Por um lado tem o bolso cheio, mas pelo outro uma coisa que eu gosto muito de fazer e que eu sei que ainda vai se tornar algo muito mais forte do que é hoje. Deixando o blábláblá de lado, eu pretendo fazer isso enquanto tiver condições, quando não tiver, mesmo gostando muito disso, eu pretendo procurar outra coisa pra fazer. Tá na hora de se dedicar a uma coisa só.

Outro dia um outro amigo me liga e diz: “Renato, precisamos de uma pessoa que faça um meio de campo com empresas japonesas pra isso, isso e aquilo… que tal?” e eu ando tão estressado com isso que respondi: “Cara, não vou ficar na merda pra ajudar os outros e ganhar tapinha nas costas!” Acho que fui até meio estúpido na resposta, mas precisava me posicionar de alguma maneira ou aceitar um trabalho que sei que muita gente cobra muito pra fazer.

No ano passado, eu trabalhei durante 7 meses em um portal de internet, e depois disso larguei tudo, comprei uma passagem e fui para o Japão passar mais 3 meses. Aquele país é minha paixão. Tem muita coisa errada lá também, mas acho que consigo me encaixar naquela realidade, não sei explicar. Tenho muitos amigos e consigo correr atrás de sonhos. Nessa última viagem, eu fiz muitos contatos com pessoas importantes. E naquele lugar, por ser estrangeiro as pessoas me tratavam como amigo e tal. Não sei se é porque me esforço para falar japonês ou se é porque tento vender a minha idéia do Brasil como mercado consumidor de cultura pop japonesa com tanta paixão que eles se empolgam, sei lá. Um dia pretendo falar disso na coluna do jornal que pretendo escrever em Fortaleza. Aguardem!

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4 comentários Adicione o seu

  1. Kbum disse:

    É difícil mesmo vocÊ se posicionar dessa forma, mas como você colocou: é uma necessidade e você precisa se manter. É oq meus conhecidos da área do designer falam qndo negam fazer um desenho de graça, em situação semelhante a sua. E é melhor ainda ver que há mais pessoas interessadas em levar eventos com qualidade. Eu tenho certa birra com os eventos atuais: são conglomerados de jovens interessados em gastar o dinheiro dos pais em bagulhetes japas, em dois dias que não agregam, não fazem nada de produtivos na sua via. É visível a queda de fanzines ou até mesmo em AMVs. Não se produz mais nada em evento. Enfim… papo que era melhor se ter em uma mesa de bar, não num comentario de blog. Mas e aí? Vamos montar evento de cultura pop japonesa em Floripa?

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    1. Kbum disse:

      “área do designer” foi triste.

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  2. Minha mãe falava a mesma coisa, naquela época que eu “comandava” o Neo Animation e “trabalhava” na Heróis do Futuro. Vai trabalhar meu filho, vai arranjar um emprego decente…HeHeHe! Bom, por isso é que eu estou aqui. Minha mãe me pegou, botou num avião e disse, “tu vai para o Japão”! Aqui eu aprendi o que era ralar! Detesto meu trabalho, alíás, detesto trabalhar, mas tenho que sobre viver , né? Acho que você entende o que eu quero dizer. O importante é poder viver, mas se você puder ganhar dinheiro com o que mais gosta, melhor ainda. Apesar de que eu acho que aí não seria trabalho e sim diversão. Por exemplo, não consigo imaginar escrevendo o meu blog, ganhando dinheiro. Hoje eu me sinto mais feliz do que na época que eu escrevia para revistas, simplesmente por não me sentir pressionado. Acho que falta muito pra poder viver da Cultura Pop Japonesa. Você, Renato, veio ao Japão duas vezes e viu como a “coisa” aqui é mega-ultra-colossal! Bom, sucesso para seus novos projetos!

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  3. Penpas, onde você escondeu essa foto? Nunca tinha visto…

    Abraços!

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