File: Uma conversa com o criador de Mobile Suit Gundam (2002)

Yoshiyuki Tomino pensando nas respostas
Yoshiyuki Tomino pensando nas respostas

Essa entrevista foi publicada na primeira versão do site Herói em 2002. A Fundação Japão trouxe Yoshiyuki Tomino, o criador de uma das séries de robôs mais famosas do Japão, Mobile Suit Gundam, ao Brasil e nós tivemos a chance de entrevista-lo na época. No dia de nosso bate-papo, ele deu uma palestra e respondeu perguntas de fãs, na minha opinião, sempre de um jeito muito irreverente para um japonês.

Particularmente, eu não considero essa entrevista muito boa, mas tenho um certo orgulho dela por ter sido uma das minhas primeiras entrevistas internacionais, aquela que me fez perder o acanhamento e me mostrou que grandes produtores e diretores apesar de famosos e milionários são gente também. Nesta entrevista colaborou o meu senpai na época, um professor de língua japonesa da USP tão brasileiro quanto eu chamado Everson Lemos.

Enfim, leiam e depois comentem. 🙂

Na sua opinião qual a contribuição que Gundam deu a ficção científica?
Tomino: Eu não conheço outras obras de ficção científica. Por isso eu não saberia como colocar o Gundam num contexto maior de ficção, mas é claro que ele influenciou outras obras que vieram depois, mas eu não saberia mesmo calcular a medida dessa influência.

Qual a importância dos desenhos de robô na cultura japonesa atual?
Tomino: Na cultura japonesa que é muito vasta a importância é pequena. Mas historicamente tem importância como fato que não pode ser ignorado, visto que influenciou criações posteriores.

Você acha que Gundam pode vir a se tornar um live-action algum dia?
Tomino: Já existe um filme de Gundam, mas eu não tive nenhum envolvimento no projeto. Particularmente eu não gostei, mas admiro a iniciativa. (Tomino se refere a um filme criado com atores americanos e Robôs Gundam feitos com computação gráfica que foi feito há alguns anos atrás).

Você acha que a venda de brinquedos ajuda a manter o interesse pela série e vice-versa?
Tomino: Essa é uma questão perigosa, por isso prefiro não responder.

Você acredita que os personagens de Gundam possuem um perfil universal?
Tomino: O conjunto de personagens do Gundam não chega a englobar toda a variedade das personalidades humanas, mas pode ser tomado como um bom exemplo. O que torna os personagens da série Gundam abrangentes talvez seja o fato deles não representarem nacionalidades e não tendo uma complexidade psicológica.

O que você achou das duas cidades brasileiras que visitou? Rio e São Paulo.
Tomino: Achei que o povo do Rio de Janeiro mais alegre, já os paulistas me pareceram um pouco tensos, um pouco cansados de trabalhar.

Acha que o Brasil pode inspirar um anime novo?
Tomino: O Brasil tem potencial para inspirar novas obras, por causa da diversidade da população, da forma com que esse povo tão diverso convive e interage com o ambiente porque esse país tem características únicas. Esse conjunto único é naturalmente inspirador.

Quando ingressou na produção de animes você trabalhou na Mushi Productions (estúdio de Osamu Tezuka). O que você fazia lá exatamente?
Tomino: Eu era “diretor de encenação”. Essa era a minha especialidade e isso é completamente diferente de ser desenhista ou roteirista. Inclusive hoje em dia existe uma confusão que faz alguns pensarem que o criador da série tem que fazer tudo, mas os trabalhos em que uma pessoa acumula uma função ou mais acabam sempre tendo uma qualidade inferior. Cada um deve trabalhar na sua especialidade. Eu só fiz roteiro e encenação no Gundam porque neste caso eu tinha certeza absoluta da minha capacidade para fazer um bom trabalho.

Mas o que seria um diretor de encenação?
Tomino: O diretor de encenação faz o Storyboard e orienta os desenhistas na composição das cenas.

No que você se inspirou para criar as formas e as cores do robô Gundam?
Tomino: Não tenho como responder essa pergunta com detalhes porque a criação dos robôs é tarefa exclusiva dos designers. Não sou em quem cria os robôs, mas sim Kunio Ogawara (designer de Gundam) juntamente com outros projetistas.

Por quê criar um anime de robô?
Tomino: Por dois motivos. Para fazer algo melhor do que os outros animes de robô que já existiam e porque naquela época a indústria de brinquedos pedia por desenhos animados de robôs.

Qual a sua relação com Gundam hoje? Quais são seus projetos para o futuro?
Tomino: Os Gundam atuais depois de Gundam Victory não tem nenhuma participação minha. Mas estamos trabalhando na criação de 3 filmes baseados na série ZZ Gundam.

As novas gerações de descendentes de japoneses no Brasil não se interessam mais por aprender a língua japonesa, mas o mangá e o anime estão sendo motivo de atração para que jovens, não apenas descendentes de japoneses, venham estudar a língua.  Assim, o que você acha do mangá estar sendo motivo de inspiração para os jovens estudarem japonês?
Tomino: Para a minha geração o mangá como motivo para estudar japonês não tem muito valor. Pensando com uma mentalidade mais moderna o mangá e o anime são válidos como uma porta de entrada para um mundo maior que é o da cultura japonesa. Assim, os mangás não deveriam ter a finalidade única de inspirar o estudo da língua japonesa, mas o de divulgar a cultura.

Os robôs de Gundam têm mais de 40 metros de altura e são máquinas de guerra, e no entanto são pilotados por adolescentes com menos de 18 anos. Por quê isso?
Tomino: As empresas de brinquedos que encomendam as séries de robô pedem para que os Gundam sejam pilotados por garotos já que assim conseguem com que a criança se identifique com o personagem.

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